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segunda-feira, 2 de junho de 2014

Raúl Brandão (sobre Guerra Junqueiro)

Março de 1904

Veio a Lisboa acompanhar, por solidariedade, os lavradores do Douro o poeta
Guerra Junqueiro. É outro homem, que perdeu talvez em exterioridades mas ganhou em
funda emoção. Tendo-se-lhe um dia deparado universais interrogações no caminho;
tendo encontrado frente a frente, ao meio da vida, ideias abaladoras, que só o homem de
génio pode encarar sem o pavor e o deslumbramento que o grande mistério comunica –
as raízes do universo –, ele mudou de rumo, tão simplesmente como se praticasse o acto
mais banal da existência. Sendo já um dos maiores poetas da Europa – quis ser também
um santo... Durante anos procurou como Fausto o segredo da Vida no fundo dos
laboratórios. E noutra fase do seu espírito decorativo, tendo entrevisto, pelo poder do
génio, novas veredas a tentar, seguiu-as, fazendo experiências que a ciência de hoje
plenamente confirma.
17
Guerra Junqueiro está na mesma: alguns fios brancos a mais na grande barba de
santo, começo de calva amarelada no alto da cabeça, chapéu baixo, uma simplicidade de
trajo que vai bem com a simplicidade verdadeira ou fictícia da sua alma. E sobre isto os
olhos terríveis que nos fitam e nos adivinham até ao fundo. A conversa é prodígio que
evoca, ilumina, toca em todos os problemas da vida, dando-lhes uma grandeza e novos
aspectos que entontecem.
Fala-se a propósito dum livro, e ele diz, não palidamente, nem decerto com as
inexactidões com que reproduzo, o seguinte:
– É um livro interessante. O autor conseguiu deixar faiar a parte de inconsciente
que cada um de nós traz consigo... Porque, meu amigo, a porção do infinito que cabe a
cada homem é exactamente a mesma. O camiseiro ali defronte e um homem de génio
têm na alma idêntico quinhão. Somente, o camiseiro não consegue encontrá-la nem
pode exteriorizá-la. Porquê? Porque só pensa em camisas. O homem é o universo
reduzido... Que cada um pudesse deixar-se narrar – e teríamos a mais maravilhosa
história do Mundo.
E como incidentemente se refira à ciência, ei-lo que se desvia por outro
esplêndido caminho:
– As últimas descobertas modificaram completamente a ciência. Fm um
terremoto. E eu entrevi isto mesmo: há anos que chegara ao seguinte resultado: –
radiação universal e desassociação dos átomos. Fiz experiências, que me deram
resultados incompletos, procurei homens de ciência, que não me quiseram atender. Um
dia vim de propósito a Lisboa falar a Sousa Martins e expus-lhe as minhas teorias.
Ouviu-me... Quando me fui embora, encolheu decerto os ombros. E, no entanto,
passados anos, vejo confirmado experimentalmente tudo o que eu previra... Que quer?...
Faltavam-me, como compreende, os meios de verificação. Precisava de factos.
Cala-se um momento e depois continua:
– Hei-de publicar, depois da Oração à Luz, que sai brevemente, uma série de
memórias com os resultados dessas experiências. A vida – é o Amor e a Dor. Procurar
as suas leis, eis tudo. Seguir-se-á a minha teoria filosófica. Adivinhei todo este
terremoto que se deu n1timamente na ciência. Hoje, a matéria não existe: já a definem –
associação de energias. Que é feito dos materialistas? A ciência futura será portanto o
estudo de energias. Por último publicarei uma introdução à ciência, visto não poder
escrever essa obra: seria a revisão dos trabalhos de Spencer – a tarefa de toda uma vida.
– E tem muitos documentos?
– Tenho tudo pronto. Necessito apenas de encontrar a forma precisa, a forma
matemática, para exprimir as minhas ideias.
Incansável. É de ferro. Pequeno e mirrado, passeia horas e horas a conversar...
Não conversa – monologa.


                                                       Raúl Brandão, Memórias Vol. I.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Guerra Junqueiro: Oração à Luz (1904)

Claro mistério
Do azul etéreo!
Sonho sidéreo!
Luz!

Da Terra dorida
Alento e Guarida!
Fermento da vida,
Luz!

Eucaristia santa,
Vinho e pão que alevanta
Homem, rochedo e planta…
Luz!

Virgem ígnea das sete cores,
Toda abrasada de esplendores,
Mãe dos heróis e mãe das flores,
Luz!
Fiat harmónico e jucundo,
Verbo diáfono e profundo,
Alma do Sol, corpo do mundo,
Luz!

Luz-esp’rança, luz rútila da aurora,
Vida vibrando na ampliação sonora,
Vida cantando pela vida fora,
Luz!

Luz que nos dás o pão, ó luz amada!
Luz que no dás o sangue, ó luz doirada!
Luz que nos dás o olhar, luz encantada!
Bendita sejas, luz, bendita sejas!

Sejas bendita em nós, ó fonte de harmonia!
Sejas bendita em nós, ó urna de alegria!
Bendito seja o filho teu, o alvor do dia!
Perpetuamente, ó luz, ó mãe, bendita sejas!

*

A inabalável rocha taciturna,
Quando a electrize o teu deslumbramento,
Acora e sonha na mudez soturna…

Por ti se volve areia; e num momento
A área é lodo, é seiva, é fruto lindo,
É carne humana, é sangue, é pensamento…

Por ti a água exulta, anda bramindo,
Por ti rola do monte ao sorvedoiro,
E voa, em nuvens, pelo azul infindo…

Por ti orvalho: Cai no trigo loiro?
É pão e é hóstia … Cai na flor? Incenso,
Néctar, abelha, borboleta d’oiro…

Por ti flutua o ar, um mar imenso,
Prenhe de vidas invisíveis, onde
Todo o sonho da terra anda suspenso…

Ao teu hálito, ó luz, nada se esconde:
Brilhas! E a alma opaca da matéria
Das entranhas do globo te responde!...

Brilhas! E amor e dor, luto, miséria,
Doira-os a graça, a juventude, o encanto
Do teu manto de púrpura sidérea!

És tu que alumbras alegria e pranto:
No sorriso do herói clarão eterno,
Prisma de Deus na lágrima do santo.

Em teu fulgor genésico e materno
Surdem núpcias das campas viridente
E um novo abril palpita em cada Inverno…

Por ti suspiram, sem te ver, dormentes,
As almas vegetais, indefinidas
No mistério noturno das sementes…

Germinando por ti, por ti vestidas,
Sonham aroma, sonham forma e cor,
Em teu alvor magnético embebidas…

E esplêndidas de graça, enlevo e amor
Erguem-te, ó luz, um ai e luz adiante,
Aberto em beijo, idealizado em flor!...
Por teu frémito d’oiro, instante a instante,
O verme cego, enclausurado, imundo,
Gera a visão liberta e deslumbrante.

Por ti um sopro anímicoo e fecundo
Penetra o lodo, a rocha, a água, o ar,
Voa de esporo a esporo, e mundo a mundo…

Por ti a asa, o lábio, a mão, o olhar…
Por ti o canto e o riso e o beijo e a ideia…
Por ti o verbo ser e o verbo amar!...

A inextrincável, a infindável teia
Do sonho do universo em luz é urdida,
Em Luz vislumbra e misteriosa ondeia…

Suspensa em luz, da mesma luz nutrida,
Vai para Deus rolando eternamente
A dor, na eterna evolução da vida…

Homem, nuvem, granito, onda, serpente,
A rocha, o ar, o abutre, a folha d’hera,
O mundo, os mundos, tudo que é vivente,

Do lodo à águia, do metal à fera,
Da fera ao anjo, do covil à cruz,
Move-se tudo, existe e reverbera,

Sonhando, amando, palpitando em luz!...
***

E o coração a arder, que das alturas
Manda perpétua luz às criaturas,
Vive às escuras!

Seus infernos de fogo a trovejar
Dão aurora e luar.

Sua angústia sem fim, que não descansa,
É mãe do beijo e mãe da esp’rança.

Dos ais candentes da sua dor
Brota o sorriso e brota a flor.

Bendito seja!

Arde por nós a toda a hora,
Sofre por nós a toda a hora,
Por nós morrendo a toda a hora,
Continuamente!

Bendito seja!

O seu tormento é o nosso alento,
Sua paixão cruel e dolorida
A nossa vida.

Bendito seja! bendito seja!

Bendito o mártir, cujo sangue a flux
Alaga os mundos de marés de luz!

Bendita a horrenda e trémula agonia,
Cujos suspiros são o alvor do dia!

Bendita a morte, em cuja essência etérea
Ondula para Deus nossa miséria!

Bendito seja!
Bendito seja!
Bendito seja!
Bendito vezes mil o fecundo esplendor,
Nossa vítima e nosso redentor!...

***

Homem!
Quando a alvorada alumie o horizonte,
Ergue-te em pé, ergue essa fronte!
Ergue-te livre, em pé, na terra escrava,
Em que hás sido mudez caliginosa
E onda e rocha e verme e fera brava…
Ergue essa fronte humana misteriosa,

Enigmática flor crepuscular,
A flor que chora que sorri, que pensa,
A flor de dor, que a natureza imensa
Milhões de anos levou a arquitetar!...
Ergue-te calmo sobre a terra obscura,
Filho de Satanás, pai de Jesus!
E no enlevo, no mimo, na candura
Da madrugada angelizada e pura,
Faz d’olhos tristes, o sinal da cruz:
Uma cruz imortal em pensamento,
Uma infinita cruz, cheia de luz,
Aberta aos mundos num deslumbramento…

Cruz, que vindo de deus,  trespasse o inferno,
Cruz abarcando toda a imensidade,
Cruz onde um Cristo, o Amor Eterno,
Chore sem fim a dor da Eternidade!...
E extático, enlevado, absorto, imerso
Na harmonia inefável amplidão,
Ébrio de Deus, Ungido de universo,
Homem, levanta à luz esta oração:

Monstro de dor nos ermos do infinito,
Ó Sol crucificado, ó Sol bendito!

Tua carne de fluidos e metais
É a carne embrião do mundo todo,
Das águas e das rochas e do lodo,
Que foram nossas mães e nossos pais!
Por isso lanças para nós teu grito,
Por isso voam para nós teus ais!

São os teus ais sem fim de moribundo
A luz, esp’rança que electriza o mundo.

O oiro divino das manhãs formosas,
Que os orbes veste de sendais e rosas,
Como se fossem pobrezinhos nus,
É o estertor e a dor do teu fadário,
É sangue a espadanar do teu calvário,
A jorrar do teu corpo e da tua cruz!

Bendito o Cristo-Sol na crua ardente,
O monstro mártir, que infinitamente
Por nós expira, soluçando luz!...

Ó luz, ó luz, o mundo que te devora,
Mas revives no mundo a toda a hora.

Morres para nascer a todo o instante,
Mais perfeita, mais pura e mais brilhante.

Sim, mais brilhante: a claridade
Vem só do amor e da verdade.

Tu revives, ó luz, mais amorosa
Na água fluida, trémula e viscosa.

Na água fecundante e conjugal,
Mãe do homem, do verme e do cristal.

Na água móvel, mágica, indecisa,
Onde a vida fermenta e fraterniza…

Por onde o sangue a e seiva, ébrios d’amor,
Circulam para a ideia ou para a flor!

Mas a água te absorve e te agradece,
Nunca te esquece, ó luz, nunca te esquece:

Almas da água, quando se casaram,
Foi com beijos de luz que se beijaram.

***

Tu revives na terra áspera e dura,
Que é leite e mel na boca da verdura.

Leite e mel da raíz, do sugadoiro,
Que mama fragas e dá frutos d’oiro.

Sim, revives mais pura, muito mais,
No granito e no lodo e nos metais.

Matéria bruta
Não vê, não fala, não escuta,

Não pode amar,
Sem se tocar.

Quando se toca é que se liga,
Tem de ser densa para ser amiga.

Na rude e baixa natureza
O amor é solidez, a afeição é dureza.

E por isso o cristal
É um verdadeiro santo mineral.

Rochedo ou bronze
Mantém na estátua o génio criador,
Porque rochedo e bronze
São dois blocos d’amor.

O sonho ideal e genial, sonho impoluto,
Não se esvaiu, porque fundiu
No sonho bruto…

Fragas imóveis, taciturnas,
Que nós pisamos, caminhando,
São almas lentas, ínfimas, nocturnas,
Cegas e surdas, que se estão beijando!...

A pedra, ó luz, te absorve e te agradece,
Nunca te esquece, ó luz, nunca te esquece:

Porque as pedras, inertes e geladas,
Já foram sóis, estrelas, alvoradas…

*
Tu revives, ó luz, mais santa,
N’alma da planta.

Alma já feita de infinitas almas,
Vida Gerada de infinitas vidas,
Mas presas todas, palpitando unidas
Numa só alma!

Almas que existem para a mesma ânsia,
Que a mesma ardente aspiração eleva…
Sonhando, amando, ouvindo-se a distância,
Folha livre no azul, raiz muda na treva…

Almas aéreas, ondulantes,
Ébrias de cor e de esplendor,
Ao Deus ignoto erguendo as verduras radiantes,
Ao Eterno evolando emanações de flor…

E flor doirada e folha verde e troncos nus
Condensam chamas, arquitectam luz!

Incorporam em luz o infindável desejo,
Edificam em luz a essência misteriosa
Que, suspiro a suspiro e beijo a beijo,
Vai do líquen ao cedro e vai do musgo à rosa!...

Ervas, florestas, pâmpanos, rebentos,
Cálices d’oiro, bosques a noivar,
São esculturas em deslumbramentos,
Sonhos urdidos com a luz e o ar!...

*

E inda mais bela que na Primavera
Ressuscitas ó luz, num verme ou numa fera,
Que já tem sangue e tem olhar!

Luz dardejante!
Graça da cor! alvor, fulgor, esplendidez!
Tu és escuridão, és uma cega errante…
Cega nocturna e deslumbrante,
Porque alumias e não vês!

Esses olhos de estrelas vagabundos,
Olhos de luz tão viva que incendeia,
Não descobrem nem páramos, nem mundos,
Não conhecem nem flor, nem grão d’areia!
E uma alimária torva, rastejando,
Vê as nuvens e os pássaros em bando,
Vê da noite o clarão,
E na centelha exígua da pupila
Junta o braseiro d’astros que rutila,
Imensurável na amplidão!

O olho ardente
É luz prodigiosa, é luz consciente.

Olhar
É distinguir, unir, fraternizar
O sonho do universo,
Tudo o que anda disperso
Ou no lodo ou na rocha ou na água ou no ar...

E, dilatando o amor,
Dilata-se a visão, cresce a união, cresce o esplendor.

Olhos perfeitos,
D’eterna luz,
Só os olhos divinos dos eleitos.
Só os olhos de Buda ou de Jesus.
***

E ainda mais santa e mais harmoniosa
Que nos olhos da pomba ou no cálix da rosa,
Tu revives, ó luz, na música dos ninhos,
Na alegria infantil dos passarinhos.

A ave canta,
Sonorizando aurora na garganta...

Verdilhão, toutinegro, rouxinol
Declamam luz, gorjeiam sol.

Morre a canção na escuridão...

Canção alada!
Tu és a voz idealizada
Da natureza flórida e fecunda,
Ébria, bebendo oceanos d’alvorada...
Toda a alma da luz, que a terra inunda,
Todo o anseio da terra ao fulgor imortal,
Cantam na voz da cotovia,
Cristalizam na límpida harmonia
Dum beijo d’ouro ideal!...

O mundo, ó luz, te absorve e te devora,
Mas revives no mundo mais intensa,
Mais próxima de Deus a cada hora,
Nas vidas todas desta vida imensa,
Vidas sem fim, almas sem fim,
Que o segredo do amor junta e condensa,
Por meus olhos magnéticos, em mim!

Lampejam no meu corpo, humanizadas,
Mortas constelações e mortas alvoradas.

Desde que a Vida me gerou em dor
E fui éter, estrela, água, montanha e flor;

Desde que verme obscuro andei a rastros,
E lobo em pé, sob o clarão dos astros,

Ao verter uma lágrima ligeira,
Me senti homem pela vez primeira;

Quantos sóis, nebulosas, firmamentos,
Varridos já n’asa dos ventos,

Não deram luz ao lodo triste,
Que em mim, sonhando e suspirando, existe?!...

Todo o meu corpo é luz esplendorosa,
Sou um hino de luz religiosa,
Gravitando na órbita de Deus...
Milhões d’auroras riem no meu canto,
Ondas d’estrelas brilham no meu pranto,
Pélagos de luas há nos olhos meus!...

Esta carne, este sangue, esta miséria,
E este ideal imortal que me conduz,
Já foram brasas na amplidão etérea,
Por isso exultam devorando a luz...

Vive de luz minha alegria e minha mágoa,
Bate na luz meu coração,
Fulge na luz o meu olhar...
Ó luz tremente, eu bebo-te na água,

Ó luz ardente, eu como-te no pão,
E calco-te na lama e sorvo-te no ar!...
Ó luz! Luz! Luz!
Como te hei-de remir e te hei-de consolar?!...

Luz que nos enches de alegria,
Luz que desvendas a harmonia,
Que és o esplendor e a cor da natureza,
Farei de ti, luz dum só dia,
A luz perpétua da Beleza!

Luz que iluminas a existência,
Luz que propagas a evidência,
Que dissolves o erro e a escuridade,
Farei de ti, da tua essência,
A luz augista da Verdade!

Luz, onde os olhos e ond eo pensamento
Casam a estrela, o verme, a rocha, a água, o vento,
Homens e monstros, a canção e a dor,
Farei de ti, luz dum momento,
A luz eterna, a luz divina, a luz do Amor!

Farei de ti a luz do Amor, que não se apaga,
A luz que tudo alaga
E tudo vê e tudo esquece...
A luz que nos deslumbra e irradia
Dum suspiro, dum ai, duma agonia,
Dum beijo humilde ou duma prece...

A luz, em cuja glória idealizante,
O braseiro dos astros rutilante
É cinza escura e sepulcral,
E a apoteose imensa da alvorada
Uma lúgubre e lenta fumarada,
Sonho torvo da dúvida e do mal...

A luz que transfigura e que converte
O César deslumbrante em poeira inerte
E o vagabundo, a rastros, num clarão...
A luz que acende lágrimas doridas
Em estrelas eternas e floridas,
Em jardins de candura e de perdão!...

Luz onde tudo vai boiando imerso,
Luz Espírito e Alma do universo,
Sol dos sóis, incriado e criador...

Luz da misericórdia e lz de esp’rança,
Luz de infinita bem-aventurança,
Manhã que rompe da infinita dor...

Ó luz dos astros, cega luz corpórea,
Que, revivendo, és água transitória,
Fraguedo e areia, podridão e planta,
Cálix que murcha e que a nortada leva,
Olhar de brasas que se volve em treva,
Gorjeio lindo que uma hora canta,
Em meu sangue exaltada e sublimada,
Em meu divino ideal crucificada,
À paz suprema chegarás por mim:
Serás a luz do Espírito amoroso,
Serás na eterna dor o eterno gozo,
A beatitude harmónica e sem fim!

Oremus:

Cândida luz da estrela matutina,
Lágrma argântea na amplidão divina,
Abre meus olhos com o teu olhar!

Viva luz das manhãs esplendorosas,
Doira-me a fronte, inumda-me de rosas,
Para cantar!

Luz abrasando, crepitando chama,
Arde em meu sangue, meu vigor inflama,
Para lutar!

Luz das penumbras a tremer nas águas,
Vela as montanhas dum vapor de mágoas,
Para sonhar!

Luz dolorosa, branda luz da Lua,
Embala, embebe a minha dor na tua,
Para chorar!

Luz das estrelas, vaga luz silente,
Cai dos abismos do mistério ardente,
Sangra calvários infinitamente,
Para eu rezar!

E cantando,
E lutando,
E sonhando,
E chorando,
E rezando,

Farei da cega luz que me alumia
A luz espiritual do grande dia,
A luz de Deus, a luz do Amor, a luz do Bem,
A luz da glória eterna, a luz da luz, amén!



JUNQUEIRO, Guerra (1997), Oração ao Pão, Oração à Luz, Porto, Lello Editores.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Dos "Exercícios de Estilo" às "Novas Cartas Portuguesas" Diferentes Percursos de um Campo Amplo


Universidad Nacional Autónoma de México
Facultad de Filosofia y Letras
VI Coloquio de Letras Modernas de estudiantes para estudiantes: "El Erotismo"



Dos Exercícios de Estilo às Novas Cartas Portuguesas
Diferentes percursos de um Campo Amplo




Este estudo trata o erotismo na literatura portuguesa da segunda metade do século XX, incidindo especificamente em dois livros publicados com um ano de diferença: “Os Exercícios de Estilo” de Luiz Pacheco e as “Novas Cartas Portuguesas”, um livro escrito a seis mãos por Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, “As Três Marias” como ficariam conhecidas depois de um processo movido pelo Estado Português contra as três autoras. Um caso que ganhou uma grande projeção internacional num momento em que se vivia ainda o período da ditadura fascista do Estado Novo que só seria derrubado dois anos depois desta publicação. Há uma paisagem política marcante que vai condicionar a sociedade e servir de fundo a todos os quadrantes da vida portuguesa. Seria impossível perceber a projeção das “Novas Cartas Portuguesas” isolada do sistema político repressivo que se vivia e da vitalidade do movimento feminista internacional.
Nesse sentido divido esta conferência em três partes fundamentais. A primeira (em jeito de panorâmica rápida) será uma breve introdução sobre o contexto político que vai condicionar as manifestações sociais e culturais no Portugal da segunda metade do século XX. Ainda nesta introdução histórica introduzirei uma passagem pequena sobre algumas manifestações do erotismo na literatura portuguesa do final do século XIX e do século XX que irão influenciar os dois casos sobre os quais incidem mais estas conferências. Assumo que será privilegiado neste estudo o conto “Comunidade” de Luiz Pacheco, inserido nos “Exercícios de Estilo”, como iremos ver.


Contextualização Histórica

Antes de entrar no campo do erotismo na Literatura Portuguesa é necessário contextualizar um pouco o estado da literatura em Portugal em meados do século XX e para isso é necessário perceber a História política, social e cultural em que ela se enquadrava.

Entre 1933 e 1974 Portugal foi governado por um regime fascista que ficou conhecido pelo período do Estado Novo. Um longo período ditatorial que durou mais de 40 anos. António Oliveira Salazar, como Presidente do Conselho governou o país entre 1933 e a data da sua morte em 1970. Após a sua morte sucedeu-lhe diretamente Marcelo Caetano. O Regime do Estado Novo só seria derrubado com a revolução do 25 de Abril de 1974 que permitiu a implantação da democracia.
O regime totalitário e fascista do Estado Novo assentou as suas bases na Propaganda dos ideais nacionalistas, no controlo completo da educação, na repressão policial e na censura.
Logo em 1933 é criada a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) que mais tarde ficará conhecida como PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado).
 Esta polícia política dispunha de uma vasta rede de informadores por todo o país que para obter informações sobre a resistência ao regime interceptava a correspondência e os telefonemas, vigilavam os locais públicos controlando grande parte da informação. Milhares de resistentes políticos foram presos. Ainda em 1933 foi criada a Direção Geral dos Serviços de Censura que instituiu a Censura Prévia. O regime fascista passa a controlar completamente a entrada de livros em Portuga e  a criação de editoras e jornais.
Para o Estado Novo a função da censura será "impedir a perversão da opinião pública na sua função de força social e deverá ser exercida por forma a defendê-la de todos os factores que a desorientem contra a verdade, a justiça, a moral, a boa administração e o bem comum, e a evitar que sejam atacados os princípios fundamentais da organização da sociedade" – O regime reservava para si os critérios do que seria a verdade, a justiça, a moral. O controlo da informação passa completamente para as mãos do regime. Não só pela informação intensionalmente detorpada e condicionada da propaganda nacionalista ou do controlo completo do ensino público, mas sobretudo pelo filtro que a censura veio impôr na vida quotidiana e pelo clima de medo generalizado que provocava a circulação de qualquer informação que fosse contrária ao regime. Como exemplo da força da censura política, a palavra “suicidio” estava completamenta proíbida na imprensa ou em publicações científicas e literárias. O regime queria propagar a ideia de que em Portugal tudo estaria completamente bem, ao ponto de ninguém sofrer por exemplo de problemas pessoais ou mentais que levassem a praticar o ato de terminar com a sua vida. O Estado novo imitou inicialmente o regime corporativo de Benito Mussolini. Tudo contra a Nação, nada contra a Nação é uma das frases de propaganda de António Oliveira Salazar que refere também que “O jornal é o alimento espiritual do corpo e deve ser fiscalizado como todos os alimentos”. O controlo total da informação pelo Estado fascista e a repressão policial expressada de todas as formas no dia-a-dia do país vai estar presente até 1974. O secretariado Nacional de Informação dependia diretamente de António Oliveira Salazar. Toda a Literatura que apresentasse um mínimo sinal de ser subversiva era proibida. A gíria popular passou a integrar a expressão “passar pelo lápis azul”, uma vez que era esta a côr dos lápis que os censores usavam para apontar as passagens a ser cortadas ou as considerações marginais.
Este clima repressivo vai marcar a literatura portuguesa de uma forma dupla. A primeira aliada ao clima de medo generalizado a um regime estanque que impedia a liberdade de expressão e condicionava a criação literária. A segunda porque o regime totalitário e fascista vai servir de contexto à criação literária de grande parte do século XX.
Se o Modernismo Literário assumiu em Portugal um elevado grau de evolução sobretudo através da geração de Orpheu e no género da poesia com Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e Almada Negreiros, a imposição do regime fascista do Estado Novo veio estancar em grande medida a cultura portuguesa pela opressão e controlo de informação que impôs. Os neo-realistas portugueses ao contrário dos modernistas tiveram como pano de fundo um regime totalitário que de várias formas os condicionou. Escritores como Alves Redol, Miguel Torga são presos e torturados. O clima de medo atua também como auto-inibição na criação literária.

Vou começar ó estudo de  Comunidade, conto que Luiz Pacheco escreveu e publicou de forma isolada em 1964 e que ganhou maior divulgação quando foi inserido na sua antologia de contos Exercícios de Estilo em 1971. Nos Exercícios de Estilo tornaram-se conhecidos muitos dos seus contos e narrativas breves que já anteriormente tinham sido publicados de forma dispersa em pequenas publicações de pouca circulação. Os Exercícios de Estilo trazem uma grande amplitude temática e uma também grande abrangência na forma de retratar e manifestar esses temas. Como elemento unificador do conjunto está a quantidade insessante de informações autobiográficas: a entrega da pessoa e escritor Luiz Pacheco ao narrador dos diferentes contos. Este carácter autobiográfico expressa-se nunca através do confessionalismo ou da revelação de um mundo interior subjetivo e abstrato. Os elementos autobiográficos revelam-se praticamente como factos concretos da vida do escritor que se espelha duplamente (a si e aos outros) de uma forma impessoal e é este o núcleo de Luiz Pacheco: a impessoalidade. O seu ser e estar no mundo reflete-se num espelho duplo – através do mimetismo do exterior e do mimetismo da sua entrega interior. Através da relação com os outros (e unicamente nesta zona de contato) o individuo reflete-se, manifesta-se e mostra-se globalmente. Um Espelho duplo onde a frase de David Foster Wallace se integrava plenamente:
Aqui o autor. Quero dizer o autor de verdade, o ser humano de carne e osso que segura o lápis, não uma máscara narrativa abstrata.” (Citação de David Foster Wallace)
O mesmo acontece no seu diário escrito entre 1971 e 1975, publicado com o título Diário Remendado (1971-1975) - O Diário como género literário seria por excelência o lugar de confessionalismo e entrega subjetiva. Mas Diário Remendado é sobretudo um lugar de organização concreta do dia-a-dia do escritor, uma organização das suas tarefas como tradutor e revisor também, um lugar de necessidade de estruturação da vida, planeamentos concretos (como o abandono da bebida – recordemos que Luiz Pacheco era alcoólico) projeções futuras de publicações. À parte as considerações sobre a literatura portuguesa, desde dentro, questões práticas e questões de afetividade, há lugar no entanto no “Diário Remendado” para a entrega à comunhão seguinte “Quero impregnar-me de gente, de paisagem portuguesa”. A relação com a família, os amigos, a perda dos filhos –entregas concretas e não confessionais. Organizações e fundações da sua sobrevivência quando a sua vida sofre sérias limitações no que diz respeito à solvência económica, ao alcoolismo, à falta de condições do local onde vive com a mulher e os filhos. Alguns deles são retirados à família por falta de recursos para a sua manutenção e este último fator vai marcar constantemente a sua escrita e acima de tudo as formas pelas quais se manifesta o erotismo na sua criação literária. Exposição total da vida do autor na zona de contacto com os outros. Anulamento do “eu” em favor da relação contínua com o todo (família, amigos) através de relações apaixonadas (ou pela afinidade total ou pelo ódio total).
Comunidade possui muitas características que o remetem para um texto de oração, o principal deles é o Agradecimento e a Bendição. O narrador agradece e bendiz o dia e a manhã que estão para vir. Agradece “a sua pequena tribo”, a oportunidade de estar nesse momento unido com a mulher e os filhos. Agradecimento simples e sincero de uma comunhão plena (ainda que com a noção da perenidade e precariedade da situação). O ato do agradecimento é reforçado com a bendição, a consciência de que se vive um momento amplo onde todos os desejos estão satisfeitos. Bendiz a comunhão plena que lhe permite este contínuo ser “A Comunidade”. A bendição é sempre o exercício mais puro de oração – Mais do que um pedir, é agradecer quem e o que se tem e mais do que agradecer é pedir que aquilo que se tem se expanda, se potencialize (ou que pelo menos nunca nos falte). A união com a Comunidade. O Pedido de renovação do mesmo contato, a mesma ligação que se sabe perecível e por isso sempre incompleta, em contínuo (os seres não pararão de se unir).
O género da oração, usado tantas vezes no literário, é um género que se associa sempre mais vincadamente ao género lírico. A Oração, como texto religioso usa quase sempre este género, o verso curto, a repetição não só dos conjuntos semânticos, mas também dos ritmos, o uso de assonâncias. A repetição com a dupla função de facilitar a memorização da oração e a repetição com uma função sagrada, de reforço (do agradecimento, da prece, da bendição, da exaltação ou contemplação) nisto o género da oração assemelha-se ao Hino ou ao Cântico Sagrado. O Hino adquirirá para os nacionalismos e instituições o papel que irá desempenhar o Cântico de Louvor para a religião. A repetição como um reforço de uma sacralização e de uma entrega absoluta assume também o papel de aglutinador dos adoradores: os que cantam o Cântico Sagrado ou os que cantam o Hino.
Na Literatura Portuguesa podemos ver o caso de Guerra Junqueiro (1850-1923) que praticou este género na literatura com a “Oração ao Pão” (1902) e “A Oração à Luz” (1904). Estes dois textos podem ser vistos como uma sequência articulada o que levou a que posteriormente os dois fossem publicados em conjunto. A Oração à luz e a Oração ao Pão têm praticamente a mesma estrutura métrica e rítmica: Podem ser vistos ao mesmo tempo como orações e hinos.
Para Fernando Pessoa a Oração à Luz era a “Obra máxima da nossa atual poesia” e recordemos que apesar da diferença de idades ( Guerra Junqueiro era 38 anos mais velho) os dois eram contemporâneos.


Claro mistério
Do azul etéreo!
Sonho sidéreo!
Luz!

Da Terra dorida,
Alenta e guarida!
Fermento da Vida,
Luz!

Eucaristia santa,
Vinho e pão que alevanta,
Homem, rochedo e planta...
Luz!

Guerra Junqueiro, Oração à Luz (1904)

A força da exaltação da luz que o autor bendiz é potenciada com a repetição e rima.
A oração é a manifestação mais assumida e vinculativa para exprimir a crença panteísta de que tudo é luz, movimento e expansão. Sendo que o pão é o produto da luz no seu devir: luz-semente-trigo. O movimento e a luz anulariam as diferenças entre os distintos elementos e todas as coisas (materiais ou imateriais) fariam parte da mesma manifestação: o movimento, a luz e a criação, a exaltação da divindade em todas as coisas (mesmo nas mais densas). A crença panteísta marcou a poesia portuguesa da transição do século XIX para o século XX.
Também nas “Odes Modernas” de Antero de Quental publicadas em 1865, logo na ode inicial está presente  esta fusão entre os diferentes elementos nos versos “o pó tornou-se ideia”, entre o físico (pó) e sabemos toda a série de alegorias cristâs de carácter negativo atribuídas ao “pó” e a “ideia” que seria equivalente à analogia da ligação entre o físico e o etéreo / o corpo e a alma através da intercepção destes dois planos num só: que se poderia traduzir pela manifestação da divindade em tudo o que existe. A Criação, a Luz e o Movimento / a sua Exaltação, Agradecimento e Bendição. Vamos ver que o tema do Panteísmo, vai manifestar-se de uma forma súbtil e indireta em “Comunidade”
 Aparentemente a poesia de Guerra Junqueiro e de Antero Quental afastar-se iam do que seria a poesia realista, que atingiu o seu expoente em Portugal com Cesário Verde (1855-1886), uma poesia plenamente plástica e objetiva. Uma poesia plenamente da natureza. Cesário Verde iniciaria a poesia impressionista e naturalista em Portugal com a publicação do seu único livro, já póstumo: “O Livro de Cesário Verde” editado em1901.
Detenho-me um pouco aqui no cenário da poesia dos finais do século XIX e no seu carácter metafísico porque esta característica vai marcar em muito a literatura portuguesa do início do século XX e vai ser importante para percebermos as formas em que se manifesta o erotismo na criação literária de Luiz Pacheco. Num primeiro plano, a poesia finissecular vai assumir uma influência vital no modernismo português, a geração de Orpheu assume desde logo, e com orgulho, esta influência. Mário de Sá Carneiro refere que Cesário Verde é já um futurista «Ziguezagueante de Europa» e Fernando Pessoa enquadra autores como Antero de Quental, Guerra Junqueiro ou Mário Beirão no que ele considera a Nova Poesia Portuguesa. Ou seja o Modernismo Português mais do que querer criar uma rutura, que claramente  vai fazer, vai incorporar muitos dos elementos da geração anterior e de uma forma humilde incorporá-los na sua geração; por um grande sistema de afinidades o heterónimo de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos vai denominar Cesário Verde como o “Mestre” Cesário Verde.
Detenho-me um pouco em Cesário Verde, autor que reunindo todas as características do naturalismo vai conseguir uma impersonalização até então nunca provada na literatura portuguesa, autor de poemas de grande carácter narrativo como “Num Bairro Moderno” ou “Cristalizações” em que a cidade (Lisboa nunca é referida, mas adivinhámos ser este o cenário) é retratada de uma forma cinematográfica e por um olhar deambulante do sujeito poético (como um todo orgânico) é representada ora de uma forma mimética onde o fatalismo está presente, a cidade, o meio privilegiado dos vícios humanos, abusos, degradações, vícios, onde o confronto de classes é mais nítido, onde as doenças como a cólera, a tísica ou a tuberculose circulam e se propagam com mais rapidez e maior força o contágio (É importante dizer aqui que Cesário Verde morreu de tuberculose). A cidade é erotizada, toda ela: na sua latência (a de todos) as pessoas e os espaços construídos pelas pessoas – a geometria desumana e as circularidades, as construções executadas pelos operários, as quedas dos operários, os lugares aliados ao vício como a taberna, o laboratório vital da experimentação humana – em todo o seu expoente, em toda a sua nitidez concreta. Produção poética, a de Cesário Verde que tanto vai entrar, mais do que influenciar, na criação de Álvaro de Campos, o heterónimo de Fernando Pessoa, futurista por excelência. Cristalizações do fluir da vida urbana, ora degradante, ora do lado do delírio e exaltação, ora do lado do tédio – sentimentos que tanto nos levam à Ode Triunfal de Fernando Pessoa como às Cristalizações de Cesário Verde – Às primeiras grandes características do Erotismo: a impersonalizarão e a Unidade: consciência máxima da perecibilidade humana, do ser humano impossível enquanto ser isolado. Consciência também da impossibilidade de comunicação desse todo unitário. Fragilidade humana erotizada no ser humano isolado de uma forma inovadora na poesia de Cesário Verde em poemas como “Contrariedades” em que Cesário Verde começa por dizer “Eu hoje estou cruel, frenético, exigente”, “Dói-me a cabeça” […] /
“Amo intensamente, os ácidos, os gumes / E os ángulos agudos.”

Sentei-me á secretaria. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de falta d'ar, morreram-lhe os parentes
 E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão livida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta à botica!
Mal ganha para sopas…
[…]
E a tisica? Fechada, e com o ferro acceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brazas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
 E fina-se ao desprezo!
Mantem-se a chá e pão! Antes de entrar na cova.
Cesário Verde: Contrariedades

À semelhança do poema “Tabacaria” de Fernando Pessoa, o sujeito poético deste poema de Cesário Verde assume um estado de espírito: frenético e impulsivo e está dentro do seu quarto e local de trabalho «senta-se à secretária» e revela o processo de criação literária, tem no entanto à sua frente «a partir da visão da janela do seu quarto» a casa de uma engomadeira – que pode ver através da janela: a casa em frente. Tal como a tabacaria, com o seu funcionário, o Esteves do poema de Fernando Pessoa. O campo visual  que os dois poetas referem é percetível do seu próprio local de trabalho: “quarto com secretária”: Local de descanso e local de trabalho, de criação – de laboratório por excelência, porque a vida (que vai ser retratada) está a ser observada e isolada diretamente pelo escritor no seu local de trabalho. No caso de Cesário Verde, este vê e descreve mimeticamente uma engomadeira que sofre de tísica, doença extremamente debilitante neste período. A engomadeira “engoma roupa para fora” no seu quarto diminuto “pobre esqueleto branco”: assim é caracterizada. A mulher em Cesário Verde é quase sempre erotizada ou através da sua inacessibilidade, distância extrema em relação ao poeta que tem consciência da impossibilidade de satisfação do desejo, ou então (quase sempre) através de um erotismo da humilhação, presente em textos como: “Contrariedades” ou “Num Bairro Moderno”. O sujeito poético descreve fisicamente esta engomadeira não a partir dos atributos físicos que o poderiam seduzir, mas a partir das suas debilidades concretas, ela é descrita como sendo “Lívida” e “Mortifica”. O conceito de humilhação aliado ao erotismo tem de ser aqui visto de uma forma mais ampla e abrangente do que aquela que normalmente atribuimos ao termo. “Humilhação” estaria não do lado da submissão, vergonha e inferioridade do lado da dominação em que o humilhado estaria subjugado a uma relação de poder abusiva por parte daquele “que humilha”, mas sim Humilhação aqui associa-se mais à denotação inicial do latim que provém do radical Húmus que nos remete diretamente para a terra, sobretudo a terra molhada ou adubada que o homem trabalha e originará a palavra humildade e homem. O erotismo da humilhação em Cesário Verde manifesta-se não através de uma relação de poder (que afasta) mas através de uma identificação e contemplação (que une). A mulher não é descrita através de uma adjetivação que exalte as suas qualidades físicas, mas através de uma identificação plena do escritor com a sua situação de fragilidade e debilidade física e social – ela deve a conta na farmácia e ela é descrita dentro de um contexto urbano opressor que marca um antagonismo forte com a sua situação de debilidade. A cidade desumana onde circulam as doenças e os vícios, onde os desajustes e desequilíbrios socias se agudizam, se mostram completamente é representada por Cesário Verde como um sítio contrário à natureza e por isso mesmo contrário às manifestações eróticas (normais e saudáveis). A mulher (erotizada através da humilhação) é erotizada também através da sua condição social – é na mulher que a condição social se potencializa (ora como um obstáculo inibidor, ora como um expoente total de liberdade), a condição social das mulheres descritas por Cesário Verde: pobres, doentes, frágeis, que quase sempre fazem trabalhos desumanos – como a regateira (vendedora de frutas) que está presente no poema “Num Bairro Moderno” ou as varinas que vendem peixe pela cidade no poema “Cristalizações”. No texto “Num Bairro Moderno” o narrador vê que um homem discute com a vendedora para que ela carregue as caixas com fruta mais depressa. Mas ela não pode já com as caixas que estão muito pesadas. É então o sujeito poético que a ajuda a carregar as caixas. Esta rapariga ainda jovem é descrita fisicamente à semelhança da engomadeira: “rota, pequenina, azafamada”, descrita também com os “braços magritos” e com um físico desproporcionado devido ao trabalho infantil, elaboração de trabalhos bastante pesados para uma criança que fazem que o seu corpo vá crescendo de uma forma desproporcional “descolorida”, “sem tronco, mas atlética”, “a pobre caminhante” com “o peito erguido”, “as mãos nas ilhargas”. É então que Cesário Verde expande esta manifestação erótica (até então centrada no corpo da mulher) para a escala da cidade. Cinematicamente e desfocalizando agora a ação para um grande plano em que a Cidade é erotizada em toda a sua pulsão vital.
Na estrofe seguinte refere-nos “Subitamente Que visão de artista! / Se eu transformasse os simples vegetais, / à luz do Sol, o intenso colorista; / Num Ser humano que se mova e exista / Cheio de belas Proporções Carnais?”

Em toda esta estrofe Cesário Verde revela o desejo de um exercício impressionista, o de absorver as impressões da cidade (à luz do sol, o intenso colorista) de uma forma transformadora e revitalizadora dessa mesma realidade, os vegetais: transfigurados num ser humano (cheio de belas proporções carnais) ao contrário da vendedora de legumes, cujo trabalho infantil impede um crescimento equilibrado e saudável. A cidade figurada do lado do patológico torna-se subitamente reconstruída, recriada à escala humana, erotizada, ela é recomposta “por anatomia” pelo olhar criador de Cesário Verde – exercício impressionista em que os diferentes frutos, vegetais e hortaliças nos aparecem subtilmente sob novas formas “sob um novo corpo orgânico” formas de uma pessoa “através dos tons e das formas” Cesário Verde descobreUma cabeça – numa melancia”que quase temos a impressão de ver. Aparecem-nos como num quadro “boíam aromas, fumos de cozinha” “ e nuns repolhos – descobre seios injetados”.
Atentemos um pouco no verbo “descobre” que retira assumidamente uma ação criadora ao autor “segundo ele”, o sujeito poético “Descobre” – O que implica a já existência desta anatomia revitalizada (das partes do corpo humano presentes nos frutos e nos vegetais) – Natureza que se manifesta ao autor: “Bons corações pulsando no tomate / E dedos hirtos, rubros, nas cenouras” – À Luz do Sol, o intenso colorista, determinadas posições dos frutos adquirem novas aparências que, pelo exercício de revitalização, são já novas realidades que o poeta apenas “Descobre” . Diríamos que esta natureza pulsante e erotizada seria não só a extensão do feminino mas a extensão da vida da cidade: pulsante, imprevisível, ganhando, sempre ganhando novas aparências que são já novas formas. A cidade erotizada aparece-nos concreta, definida, física, representada através de um corpo feminino. Cidade recomposta por anatomia – como assume diretamente Cesário Verde expondo o processo criativo.

E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo organico, aos bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça n'uma melancia,
E n'uns repolhos seios injectados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças d'um cabello que se ageite;
E os nabos--ossos nus, da côr do leite,
E os cachos d'uvas--os rosarios d'olhos.


Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, tumido, fragrante,
Como d'alguem que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que me lembrou um ventre.

E, como um feto, emfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vivida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.


Cesário Verde, Num Bairro Moderno.

(Contínua na publicação seguinte)