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segunda-feira, 11 de maio de 2015

António Pedro Ribeiro


 CONFEITARIA DA CASA

Na “Confeitaria da Casa”
Às cinco da tarde
O poeta pensa
Pensa que há dias
Em que vive noutro mundo
Um mundo fora da vida prática
Do útil
Do dinheiro
Tal como Platão e Aristóteles
O poeta despreza o dinheiro
Acha que a avidez do lucro
Destrói o homem
O poeta pensa
Num grande banquete gratuito
Onde os homens se sentam à mesa
E discutem filosofia e literatura
O poeta pensa em Sócrates e em Jesus
Na bondade, na vontade, na liberdade
O poeta tem tido visões, iluminações
Trilhou o seu próprio caminho
Rumo à noite
Rumo aos bares
E, de vez em quando,
Tem conversas que elevam
Conversas que falam
Da alma, do espírito
Da vida interior
Na “Confeitaria da Casa”
O poeta cansa-se do tédio
Da vida previsível
Que os homens levam
Dos inimigos da vida
Que não nos querem
Deixar viver
Acha-os imbecis
Porque não vêem a flor
Porque não vêem o amor
O poeta é um criador
Tem em si
O belo
O maravilhoso
A divindade
E dança
Ah! Como dança!


António Pedro Ribeiro

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

António Pedro Ribeiro


Personagens

A noite cai
os personagens doutrora
saúdam-me
vão ficando apáticos
depois saem
conferenciam lá fora

Os amigos não estão na redacção

Venho à "Brasileira"
e não sou feliz.


A. P. Ribeiro, Café Paraíso, Bairro dos Livros - Culture Print, 2011.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

António Pedro Ribeiro: Do Novo Mundo

DO NOVO MUNDO Eu procuro o homem. Procuro-o nos bares, nas ruas, nas bibliotecas. A minha vida é uma demanda. Encontrei o homem em alguns, em algumas. Mas devo prosseguir a demanda. O homem, a mulher, deveria sentar-se neste preciso momento à minha mesa. Sem meias-medidas, sem preconceitos, sem vidinhas. Falar-me-ia do homem interior, das viagens interiores, do pensamento. Também dos sonhos, das alucinações. Sim, eu tenho algo a dizer ao mundo. É preciso que o homem interior me escute e às vezes escuta. Eu tenho a dizer ao mundo que o mundo assim não serve, não tem saída. Eu tenho a dizer que outro mundo existe: um mundo de criação, luz, sabedoria. Um mundo que também está aqui. Que brilha, que pede a palavra. É preciso agarrá-lo, trazê-lo até nós, vivê-lo. Um mundo que está na infância, na juventude, na idade do ouro perdida. Este não é o único mundo. Tenho perseguido esse mundo ao longo da vida. Morrison, Miller, Nietzsche, Hesse, outros, mostraram-mo. É preciso atravessar para o outro lado. O reino está próximo. A verdadeira vida. Aqui num café de Vila Nova de Telha vivo a verdadeira vida. Agarro-a. Possuo-a. Como a mão, como os dedos, como a caneta correm livres. Como a intriga e a inveja estão distantes. Como sou o mago das minhas horas. Como é belo o momento. Como o celebro. Eis a verdadeira vida. Amo-a como à eternidade. Não há deuses e há os deuses todos. Como eles dançam. Como correm como loucos. Amo a vida. Amo o que o pensamento transmite à caneta. A escrita automática. Universos vivem em mim. Nas minhas letras. Estou possesso. Nunca houve tarde como esta. Sou o homem. Sou o homem que cria. Encontrei o reino perdido, o uno primordial. Venho do primeiro homem. Sou livre. Sou capaz de tudo. Pertenço à terra. Toda a filosofia brilha em mim. Vinhos mil. O ouro. Que é feito do rapaz tímido? Que é feito do menino das boas notas? Que fizeram dele a máquina e as horas? Onde está o rapaz tímido? Dá umas gargalhadas, dama pálida. Viu coisas, atravessou os mares. Está a voltar aos escritos dos 20 anos. Quilómetros de cérebro em busca do totem da tribo, em busca de ti. Quem és tu, hoje? Passeias-te entre reis, entre deuses, vês o nunca visto. Nada te liga ao que é pequeno. Ao escrever abres portas. Estás no mágico, no maravilhoso. O maravilhoso existe. Não é uma quimera. As portas estão abertas. Venham. Entrem. Vamos dar uma volta. Atravessar para o outro lado. Esqueçam tudo o que aprenderam. Esqueçam tudo o que foram. Esqueçam a máquina. Vamos até ao outro lado. Vamos ficar loucos. Esquece os relógios e os televisores. Dança. Dança, dama pálida. Deixa para trás todos os que te fizeram mal. Dança. Não mais sofrimento. Não mais angústia. Dança. Continua a dançar. Eles querem quebrar o encanto. Eles querem quebrar o encanto. Não deixes. Dança! Há um mundo novo a nascer. Não deixes que o matem. Um mundo novo. Dança, bebe em honra do novo mundo, dama pálida. Voltámos à idade do ouro, à infância feliz. Não há barreiras. Não há fronteiras. Estamos possessos pela música. Deixa-te ficar no outro lado. Deixa-te ficar. Vence os pequenos, os invejosos, os intriguistas. Como tudo é pequeno visto aqui de cima. Não os ouças mais. Sê livre. Sê louca. Dança. Estamos a construir o novo mundo. Nunca mais seremos os mesmos. António Pedro Ribeiro

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

António Pedro Ribeiro

CARTA À MINHA MÃE

Sabes, mãe,
eles deram cabo do Homem
sabes, mãe,
houve um tempo em que fui à escola
houve um tempo em que até trabalhei
mas agora cansei-me, mãe,
não posso mais ficar passivo
não posso mais assistir sentado
eles estão a dar cabo de mim

Sabes, mãe,
estas coisas vêm da infância
eu observava as coisas
era talvez o mais inteligente, mãe
mas não intervinha
contentava-me com o meu mundo
com os meus personagens
mas agora o teatro é outro
envolvi-me com o mundo
casei-me com o mundo
e eles estão a dar cabo
do nosso mundo, mãe
destroem a natureza
viram a natureza contra nós

Até podes votar neles, mãe
mas sabes, mãe, eu não sou como eles
eu preocupo-me com os meus filhos
e paro como as outras mães

Sabes, mãe, essa merda dos negócios
e do dinheiro
não me diz nada
gasto-o em dois tempos
quando o tenho
são papéis e pedaços de metal
que se trocam
nada mais
mãe, estou farto dos discursos deles
na televisão
é a mim que eles querem destruir
querem-me mole, fraco, deprimido
mas desta vez não vão conseguir.

Mãe,
eu sou o Homem.


António Pedro Ribeiro