domingo, 27 de dezembro de 2015

Prece Navajo

Caminhar em Beleza


Hoje eu saio a caminhar...
tudo que é desnecessário vou deixando para trás
serei assim, como eu era antes,
sinto uma brisa suave refresca-me todo o corpo
sinto que o meu corpo é todo feito de luz
e a felicidade acompanha sempre o meu caminhar
Nada poderá impedir-me de caminhar na beleza
Enquanto caminho assim...
vejo a beleza diante de mim
vejo a beleza atrás de mim
vejo a beleza abaixo de mim
vejo beleza acima de mim
vejo a beleza dentro de mim
vejo a beleza ao meu redor
Belas são as minhas palavras
Eu sei que posso caminhar na beleza durante todo o dia
Através das temporadas retornando para casa,
na beleza eu posso caminhar
Na trilha marcada com os grãos de pólen,
na beleza eu posso caminhar
Com o orvalho molhando os meus pés,
na beleza eu posso caminhar
Com a beleza diante de mim, eu posso caminhar
Com a beleza atrás de mim, eu posso caminhar
Com a beleza abaixo de mim, eu posso caminhar
Com a beleza acima de mim, eu posso caminhar
Com a beleza ao meu redor, eu posso caminhar
Com a beleza dentro de mim, eu posso caminhar
e mesmo com o passar dos anos
num rastro de beleza, estarei sempre a caminhar
vivendo uma nova vida, na beleza irei sempre caminhar

Caminho sempre na Beleza
e a beleza torna-se o meu caminho
Minhas palavras são belas
e meu caminhar também


Prece Navajo.


Angélica Freitas

rilke shake

salta um rilke shake
com amor & ovomaltine
quando passo a noite insone
e não há nada que ilumine
eu peço um rilke shake
e como um toasted blake
sunny side para cima
quando estou triste
& sozinha enquanto
o amor não cega
bebo um rilke shake
e roço um toasted blake
na epiderme da manteiga

nada bate um rilke shake
no quesito anti-heartache
nada supera a batida
de um rilke com sorvete
por mais que você se deite
se deleite e se divirta
tem noites que a lua é fraca
as estrelas somem no piche
e aí quando não há cigarro
não há cerveja que preste
eu peço um rilke shake
engulo um toasted blake
e danço que nem dervixe

Partilhado a partir de Modo de Usar.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Os poemas sobre barcos


Talvez os textos mais perfeitos do nosso tempo estejam a ser escritos na nossa língua e falem do sepultamento dos navios, talvez só possamos falar sobre barcos, de países inteiros que se sentam à volta de uma mesa, de bandeiras que se abraçam.

Talvez só possamos falar de barcos numa cama, nas traseiras de um livro, com o Livro de Cesário Verde como mastro, vela e capitão do olhar, Guardador de Rebanhos todo sublinhado a verde - A minha pátria é a língua portuguesa e a minha família é o meu país – e talvez não haja Portugal, mas sim uma mistura ignóbil de "estrangeiros do interior" a governar-nos e a estropiar-nos o resto do que somos. (Pessoa, Carta a um herói estúpido) - Talvez esteja apenas cruel, frenético, exigente e não querer ver mais sofrimento em nenhuma cara do meu país seja a minha bandeira: bandeira imaterial de cor nenhuma, haste completa, cheia pelo vento quente como uma saia que abana lá em cima. Essa eu abano, com essa eu celebro, a essa eu bebo, essa eu abraço no tempo certo e não deixo cair.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Charles Baudelaire

O Bolo


Eu viajava. A paisagem no meio da qual eu estava era de uma grandiosidade e de uma nobreza irresistíveis. Alguma coisa passava-se, sem dúvida, nesse momento em minha alma. Meus pensamentos giravam com uma leveza igual à da atmosfera; as paixões vulgares, tais como a ira e o amor profano, pareciam-me agora tão distantes quanto as nuvens que desfilavam no fundo dos abismos sob meus pés; minha alma parecia tão vasta e tão pura quanto a cúpula do céu que me envolvia; a lembrança das coisas terrestres não chegava a meu coração a não ser atenuada e diminuída como o som dos sininhos de animais imperceptíveis que pastavam ao longe, bem longe, na vertente de uma outra montanha. Sobre o pequeno lago imóvel, negro pela sua imensa profundidade, passava, vez por outra, a sombra de uma nuvem, como o reflexo do capote de um gigante voando através do céu. E me lembro que essa sensação solene e rara, causada por um grande movimento completamente silencioso, enchia-me de alegria misturada com medo. Ou seja, eu me sentia, graças à entusiasmante beleza pela qual estava envolvido, em perfeita paz comigo e com o universo; creio mesmo que, em minha perfeita beatitude e total esquecimento de todo o mal terrestre, acabei por não achar mais ridículos os jornais que pretendem que o homem nasce bom — nisso, como a matéria incurável renovasse suas exigências, sonhei descansar da fadiga e aliviar o apetite causados por uma tão longa ascensão. Tirei de minha bolsa um grande pedaço de pão, uma xícara de couro e um frasco de um certo elixir que os farmacêuticos, naquele tempo, vendiam aos turistas para. na ocasião, misturar com a água da neve. Estava cortando tranquilamente o meu pão quando um ruído muito leve fez-me levantar os olhos. Diante de mim encontrava-se um pequeno ser esfarrapado, negro, descabelado, cujos olhos escavados, ferozes e como que suplicantes devoravam o pedaço de pão. Eu o ouvi suspirar em voz baixa e rouca a palavra: bolo! Não pude me impedir de rir, escutando o termo que ele empregava para louvar meu pão quase branco, e eu, então, cortei uma bela fatia e ofereci a ele. Ele aproximou-se, lentamente, sem tirar os olhos do objeto de sua cobiça; depois, agarrando o pedaço com a mão, recuou, rapidamente, como temendo que minha oferta não fosse sincera ou que eu já me tivesse arrependido.

Mas, no mesmo instante, foi derrubado por um outro pequeno selvagem, saído não sei de onde e tão perfeitamente semelhante ao primeiro que se poderia tomá-lo por seu irmão gêmeo. Juntos eles rolaram pelo chão disputando a preciosa presa, nenhum deles querendo, sem dúvida, sacrificar a metade para seu irmão, O primeiro, exasperado, agarrou o segundo pelos cabelos; este, por sua vez, segurou o outro pela orelha com os dentes e cuspiu uma pequena quantidade de sangue com um soberbo xingamento em patoá. O legítimo proprietário do bolo tentou enfiar suas pequenas unhas nos olhos do usurpador; por sua vez este aplicou todas as suas forças para estrangular o adversário com uma das mãos, enquanto com a outra tratava de meter no bolso o prêmio do combate. Mas, reavivado pelo desespero o vencido voltou a atacar e botou o vencedor por terra com uma cabeçada no estômago. Como descrever uma luta tão feia que durou, na verdade, mais tempo que as forças infantis pareciam prometer? O bolo viajara de mão em mão e mudara de bolsos a cada instante: mas, oh! mudara também de volume; e até que, por fim, extenuados, ofegantes, sangrando, eles pararam por impossibilidade de continuar, pois não havia mais, a bem dizer, nenhum motivo de briga: o pedaço de pão tinha desaparecido, espalhado pelo chão em forma de migalhas semelhantes a grãos de areia, com os quais estava misturado. Este espetáculo havia-me ensombrecido a paisagem e a calma alegria onde se deleitava minha alma, antes de ver esses pequenos homens, tinha desaparecido totalmente; fiquei triste durante muito tempo, repetindo-me sem cessar: “Existe um soberbo país onde o pão se chama bolo, guloseima tão rara que é suficiente para engendrar uma guerra perfeitamente fratricida!"


Charles Baudelaire, in O Splen de Paris.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Rubem Braga: Homem no mar



De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo azul das águas, pequenas espumas que marcham alguns segundos e morrem, como bichos alegres e humildes; perto da terra a onda é verde.
Mas percebo um movimento em um ponto do mar; é um homem andando. Ele nada a uma certa distancia da praia, em braçadas pausadas e fortes; nada a favor das águas e do vento, e as pequenas espumas que nascem e somem parecem ir mais depressa do que ele. Justo: espumas são leves, não são feitas de nada, toda sua substância é água e vento e luz, e o homem tem sua carne, seus ossos, seu coração, todo seu corpo a transportar na água.
Ele usa os músculos com uma calma energia; avança. Certamente não suspeita que um desconhecido o vê e o admira porque ele está nadando em uma praia deserta, Não sei de onde vem essa admiração, mas encontro nesse homem uma nobreza calma, sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solitário como se ele estivesse cumprindo uma bela missão. Já nadou em minha presença uns trezentos metros; antes, não sei, duas vezes o perdi de vista, quando ele passou atrás das árvores, mas esperei com toda confiança que reaparecesse sua cabeça, e o movimento alternado de seus braços. Mais uns cinqüenta metros, e o perderei de vista, pois um telhado o esconderá. Que ele nade bem esses cinqüenta ou sessenta metros, isto me parece importante, é preciso que conserve a mesma batida de sua braçada, que eu o veja desaparecer assim como o vi aparecer, no mesmo rumo, no mesmo ritmo, forte, lento, sereno. Será perfeito; a imagem desse homem me faz bem.
É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os traços de sua cara. Estou solitário com ele, e espero que ele esteja comigo. Que ele atinja o telhado vermelho, e então eu poderei sair da varanda tranqüilo, pensando – ” vi um homem sozinho, nadando no mar; quando o vi ele já estava nadando; acompanhei-o com atenção durante todo o tempo, e testemunho que Le nadou sempre com firmeza e correção; esperei que ele atingisse um telhado vermelho, e ele atingiu”.
Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; ele não estava fazendo nenhum gesto a favor de alguém, nem construindo algo útil; mas certamente fazia uma coisa bela, e a fazia de um modo puro e viril.
Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão.


Rubem Braga, in Elenco dos Cronistas Modernos.


domingo, 22 de novembro de 2015

João Cabral de Melo Neto


"...E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."

João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina.

sábado, 21 de novembro de 2015

Carlos Drummond de Andrade

Dentaduras Duplas

Dentaduras duplas!
Inda não sou bem velho
para merecer-vos...
Há que contentar-me
com uma ponte móvel
e esparsas coroas.
(Coroas sem reino,
os reinos protéticos
de onde proviestes
quando produzirão
a tripla dentadura,
dentadura múltipla,
a serra mecânica,
sempre desejada,
jamais possuída,
que acabará
com o tédio da boca,
a boca que beija,
a boca romântica?...)

Resovin! Hecolite!
Nomes de países?
Fantasmas femininos?
Nunca: dentaduras,
engenhos modernos,
práticos, higiênicos,
a vida habitável:
a boca mordendo,
os delirantes lábios
apenas entreabertos
num sorriso técnico
e a língua especiosa
através dos dentes
buscando outra língua,
afinal sossegada...
A serra mecânica
não tritura amor.
E todos os dentes
extraídos sem dor.
E a boca liberta
das funções poético-
sofístico-dramáticas
de que rezam filmes
e velhos autores.

Dentaduras duplas:
dai-me enfim a calma
que Bilac não teve
para envelhecer.
Desfibrarei convosco
doces alimentos,
serei casto, sóbrio,
não vos aplicando
na deleitação convulsa
de uma carne triste
em que tantas vezes
me eu perdi.

Largas dentaduras,
vosso riso largo
me consolará
não sei quantas fomes
ferozes, secretas
no fundo de mim.
Não sei quantas fomes
jamais compensadas.
Dentaduras alvas,
antes amarelas
e por que não cromadas
e por que não de âmbar?
de âmbar! de âmbar!
feéricas dentaduras,
admiráveis presas,
mastigando lestas
e indiferentes
a carne da vida!


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Manuel Bandeira: Pneumotórax


Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
– Diga trinta e três.
– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
– Respire.
– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


Manuel Bandeira


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Manuel Bandeira: Minha Grande Ternura


Minha grande ternura
Pelos passarinhos mortos;
Pelas pequeninas aranhas.

Minha grande ternura
Pelas mulheres que foram meninas bonitas
E ficaram mulheres feias;
Pelas mulheres que foram desejáveis
E deixaram de o ser.
Pelas mulheres que me amaram
E que eu não pude amar.

Minha grande ternura
Pelos poemas que
Não consegui realizar.

Minha grande ternura
Pelas amadas que
Envelheceram sem maldade.

Minha grande ternura
Pelas gotas de orvalho que
São o único enfeite de um túmulo.


Manuel Bandeira.

domingo, 1 de novembro de 2015

Carlos Drummond de Andrade

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,

seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresseÂ…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

Carlos Drummond de Andrade.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Oswald de Andrade


Por causa de Dorotéia, vejo tudo possível para mim.: Tribunas, Cadeias, Manicômios, Cadeiras Elétricas, etc. etc.
E vejo tudo lùcidamente. Sou o crítico teatral de minha própria tragédia!


Oswald de Andrade, Serafim Ponte Grande.

sábado, 22 de agosto de 2015

Diego Moraes

Você disse que sonhos é como fazer musculação
Você disse que Vou à Bahia leva crase
Você disse que queria adotar um cachorrinho e fazer Teatro
         [de Rua em São Paulo
Você disse que Roberto Piva era o poeta mais lindo do mundo
Você disse tantas coisas bacanas quando eu tava fudido
Você disse que eu sairia dessa e levou livros e cigarros quando
         [eu tava internado naquela clinica para drogados
Você foi minha garota e foi foda ver seu sorriso de mãos dadas
         [com outro cara
Sempre fico sem jeito com o meu passado
Nessas horas eu queria ser invisível ou ter asas.



Diego Moraes, partilhado a partir de Modo de Usar.


José Manuel Teixeira da Silva

MIRADOUROS

As mães levam os filhos pela mão
mostram as ruas, os pequenos comércios
apontam o mar, planícies
outros campos muito rasos

Alcançam depois as paragens mais altas
conduzem-nos para o extremo dos caminhos
abordam os abismos, a placidez
Guardam os seus olhos em segredo
usam de serena violência
que volte tudo um dia apenas como sonhos

Acende-se o rastilho de miradouros na cidade
 chapas de sol longamente trocadas  
um código de clarões que aproxima
as coisas que não vemos
Quando a luz em si decai
aparece a grande nitidez
vem chamar vultos para a noite

As mães trespassam o labirinto
dessa teia, por nós cegos
pontas soltas que enleiam viandantes
afastam-nos para sempre
Há dias em que perguntam

de que mais vasto miradouro nos saberá alguém

onde o lugar que seja o mesmo olhar?



José Manuel Teixeira da Silva, O Lugar que Muda o Lugar, Lisboa, Língua Morta, 2013.

Partilhado a partir de Amadeu Baptista  

Pedro Craveiro: Ensaio sobre ele


we must love one another or die
w. h. auden

so only one life can't be enough
para esperar o teu regresso
(qual penélope, qual quê)

numa casa sem telhado
pergunto-me o que fazer com o frasco
de nescafé, a tua caneta da sorte,
os teus dentes de leite, o teu postal
dos jardins de butchart, do katmandu,
o teu petit larousse,
                        os teus óculos

dói-me o corpo todo e esta cidade
nada mais me trouxe do que uma dúzia
de charros numa noite perdida:
i should learn to look at
an empty sky and feel its total
dark sublime, though this might
take me a little time
não há muito a fazer, my dear.


aguardar é tudo por agora
tecer, adiar um dia de desordem
e acreditar que a vista para o pátio
é o teu tapete de chegada



Partilhado a partir de Enfermaria6.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Rosalina Marshall


ALTAS MADRUGADAS FRIAS

os dois amantes não sabem o que é ter família

param num café qualquer
capuletos escondem-se atrás das árvores
um dia as árvores morrerão também
e a noite furiosa
em passos largos
tomará a avenida da república
e na passadeira
esperaremos que tudo passe


Rosalina Marshall, Manucure, Lages do Pico: Companhia das Ilhas, 1ª edição, 2013, p. 14.

Partilhado a partir de meia-noitetodo o dia.

Rosalina Marshall

VELOZ FAÚLHA ATMOSFÉRICA


atrás dos comboios que passam
não fica nada
o ar que lá estava
lá fica
porta invisível
eternamente chiando

Rosalina Marshall, partilhado a partir de Bibliotecário de Babel.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Allen Ginsberg


A supermarket in California



What thoughts I have of you tonight, Walt Whitman, for I walked down the
streets under the trees with a headache self-conscious looking at the full moon.

In my hungry fatigue, and shopping for images, I went into the neon fruit
supermarket, dreaming of your enumerations!
What peaches and what penumbras! Whole families shopping at night! Aisles
full of husbands! Wives in the avocados, babies in the tomatoes! --- and you,
Garcia Lorca, what were you doing down by the watermelons?
I saw you, Walt Whitman, childless, lonely old grubber, poking among the
meats in the refrigerator and eyeing the grocery boys.
I heard you asking questions of each: Who killed the pork chops? What price
bananas? Are you my Angel?
I wandered in and out of the brilliant stacks of cans following you, and
followed in my imagination by the store detective.
We strode down the open corridors together in our solitary fancy tasting
artichokes, possessing every frozen delicacy, and never passing the cashier.
Where are we going, Walt Whitman? The doors close in an hour. Which way does
your beard point tonight?
(I touch your book and dream of our odyssey in the supermarket and feel
absurd.)
Will we walk all night through solitary streets? The trees add shade to
shade, lights out in the houses, we'll both be lonely.
Will we stroll dreaming of the lost America of love past blue automobiles in
driveways, home to our silent cottage?
Ah, dear father, graybeard, lonely old courage-teacher, what America did you
have when Charon quit poling his ferry and you got out on a smoking bank and
stood watching the boat disappear on the black waters of Lethe?

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Maria Sousa


despi devagar o calor de dizer o teu nome
no silêncio do quarto
o aconchego de se ainda voltasses
abre-se em palavras surdas
depois de improviso percorro a solidão
ao espelho
como se, ao olhar muito, te visse
preso na pele dos dedos
inacabado e à deriva nos meus olhos


Maria Sousa, Exercícios para endurecimento de lágrimas, Lisboa, Língua Morta, 2010.

Inês Dias

MENINA CALÇANDO A MEIA
[Estufa-Fria, 1966]

Não te mexas.

O futuro é perder o equilíbrio,
cair até bater no fundo
de uma insónia hora a hora
interrompida para respirar
à superfície da luz.

Não te mexas, ainda.

Não hesites, não assustes o sonho
pousado em teia sobre ti,
não agites as águas.
E talvez a vida se deixe
ficar à margem
com os seus dias armados de pedras.

Inês Dias, Da Capo, Lisboa, Averno, 2014.

sábado, 6 de junho de 2015

Constantin Cavafy


Círios

Os dias do futuro estão em frente a nós
como uma longa fila de círios acesos.
Dourados, quentes, vivos, pequeninos círios.
Os dias do passado ficam para trás,
uma triste fileira de apagados círios:
ainda fumegantes os mais próximos,
os outros frios, derretidos, recurvados.
Não quero vê-los: essa imagem fere-me –
dói-me lembrar a luz que foi a deles.
Olho na frente os meus círios acesos.
Não quero voltar-me e ver, horrorizado,
quão rápida se amplia a fila escura,
como se multiplicam os que se apagaram.

Constantin Cavafy, 90 e mais quatro poemas, Coimbra, Centelha, 1986.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Clarice Lispector


É. Mas parece que chegou o instante de aceitar em cheio a misteriosa vida dos que um dia vão morrer. Tenho que começar por aceitar-me e não sentir o horror punitivo de cada vez que eu caio, pois quando eu caio a raça humana em mim também cai. Aceitar-me plenamente ? É uma violentação de minha vida. Cada mudança, cada projeto novo causa espanto: meu coração está espantado. É por isso que toda a minha palavra tem um coração onde circula sangue.


Clarice Lispector, Um Sopro de Vida (Pulsações), Lisboa, Relógio D’Água, 2012.

Clarice Lispector


Ângela, eu também fiz meu lar em ninho estranho e também obedeço à insistência da vida. Minha vida me quer escritor e então escrevo. Não é por escolha: é íntima ordem de comando.

Clarice Lispector, Um Sopro de Vida (Pulsações), Lisboa, Relógio D’Água, 2012.


terça-feira, 12 de maio de 2015

Maria Sousa


Podemos cantar uma canção os dois

podemos cantar um canção os dois
a valsa da matilde do waits
a voz do vinagre onde o álcool se transforma em som
algures no nosso oeste
cactos e bagaço
o blue valentine na kentucky avenue
uma lágrima numa longa
noite sem fim
porque esperamos?
não sei
juro que não sei sentada na berma
já tenho doses de noites a
mais
de esquinas e portas
de adeus em adeus
elas não suportam a separação
não choram mais porque secaram
i never talk to strangers
o som da cidade
fica restabelecido e já não tenho horas
o relógio parou
e eu fiz um gesto obsceno
e desapareci


Maria Sousa, in Cadernos de Poesia nº 3, Enfermaria 6, Lisboa, 2015.

Luís Quintais


Ecografia #3

É uma imagem do tempo
desenhando-se, flor, floração,
fértil sombra, alma.
Ecos desfiam o perfil
de Amélia, ombros,
dedos, olhos, encéfalo,
pétalas, sépalas,
sonhos.

Luís Quintais, in Cadernos de Poesia nº 3, Enfermaria 6, Lisboa, 2015.


Gonçalo Mira


 Tríptico
I
Fosses tu um rio e eu
um seixo
lançado por mãos hábeis
para te tocar a pele
uma vez
e outra e outra e outra.
E mergulhar em ti.
II
Ponho as mãos em concha
debaixo da torneira e penso:
Como seria bom que aqui estivesses
e a abrisses.
III


Fosses tu o mar
e eu pedra que submergisse em ti
brotando anéis concêntricos de pequenas vagas
como para te circunscrever
num abraço
inteiro.


Gonçal Mira, in Cadernos de Poesia nº 3, Enfermaria 6, Lisboa, 2015.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

António Pedro Ribeiro


 CONFEITARIA DA CASA

Na “Confeitaria da Casa”
Às cinco da tarde
O poeta pensa
Pensa que há dias
Em que vive noutro mundo
Um mundo fora da vida prática
Do útil
Do dinheiro
Tal como Platão e Aristóteles
O poeta despreza o dinheiro
Acha que a avidez do lucro
Destrói o homem
O poeta pensa
Num grande banquete gratuito
Onde os homens se sentam à mesa
E discutem filosofia e literatura
O poeta pensa em Sócrates e em Jesus
Na bondade, na vontade, na liberdade
O poeta tem tido visões, iluminações
Trilhou o seu próprio caminho
Rumo à noite
Rumo aos bares
E, de vez em quando,
Tem conversas que elevam
Conversas que falam
Da alma, do espírito
Da vida interior
Na “Confeitaria da Casa”
O poeta cansa-se do tédio
Da vida previsível
Que os homens levam
Dos inimigos da vida
Que não nos querem
Deixar viver
Acha-os imbecis
Porque não vêem a flor
Porque não vêem o amor
O poeta é um criador
Tem em si
O belo
O maravilhoso
A divindade
E dança
Ah! Como dança!


António Pedro Ribeiro

domingo, 10 de maio de 2015

Ode que ferve


Vários comboios se descarrilam dentro do meu peito, várzea à noite com muitos pirilampos acesos:

fervem e cruzam-se todas as linhas –

uma pirâmide de olhares cruzados em fogo, muitas rotundas, auto-estradas, viadutos,

linhas de metro, passa estridente um comboio a alta velocidade, bebo toda a cidade

e caio rotundo no chão -

sinto o suor de todos, o doce espasmo de uma jovem etrusca e todo o

Sol a incendiar-te o sorriso: fizemos um pacto com ele, com a vida com o futuro
(Comboio estranho que derrete) fizemos um pacto com tudo que fluí, as linhas
entrelaçaram-se, sinto a tua pulsação no meu peito e beijo-te os pulsos, a ansiedade

nervosa da cidade, o doce espasmo das borboletas e a Contracção de cada recém-nascido que parte –
A febre recheia a cidade –

O peito cheio de praças e cidades inteiras por dentro, viadutos, túneis, contigo em cada

esquina, dentro de cada café – com o pôr-do-sol dentro dos pul-sos – a injectar o sol
líquido no peito, não há mais caminho para trás – tenho a tua sede de futuro, são seis e
vinte da manhã e a cidade acorda e adormece ao mesmo tempo

– Sinto o calor de todos

os que aquecem – A cidade a subir-me pela espinha dorsal, como uma nuvem branca,
quando te abraço faço um pacto com a Vida

………………………………………………

A cidade chama por nós e faz nós dentro de nós, tudo flui a uma velocidade frenética e todos os poetas futu-ristas, italianos, russos, franceses, portugueses, espanhóis levantam a cortina pesada da noite à velocidade do dia – enchem os teus olhos de sol – bebo por eles toda a cidade, todos eles sabem quanto te amo (cidade industrial, ceroulas, pastor alemão, civilização assustada, seringas e preservativos no chão, cave com vários fundos húmidos) a boca cheia de vidros – lambo-te o peito, os pulsos, os dentes, a língua (uma abelha na auto-estrada) o relógio de sol funciona à noite – se formos rápidos e seguirmos o dia – quando se patina sobre gelo fino a velocidade é a única salvação – e aqui cito todos os que não disseram a frase porque a sabem
e sabem que o tempo corre – Sinto todo o desconforto dos cães à toa antes de serem atropelados estou nas mãos dos fabricantes de carros que atropelam os cães, nas mãos dos operários, nos muros contra os quais urinam, os operários com as suas mãos – com a linha da vida a arder até ao pulso, e no fim do dia as mesmas mãos com a linha da vida a arder, ou várias linhas que se cruzam, a segurar o pulso da mulher, a acordá-la, a segurar o pulso de todas as mulheres dos ope-rários – preciso tanto de calor – sou a sede, a raiva, o medo, a Vontade líquida de estar dentro de ti, sou líquido e fervo por ti dentro, amo os teus olhos, a tua boca, os teus dentes, os teus pulsos, os teus medos as tuas inseguranças, as tuas dúvidas, os teus tornozelos, a tua saliva, a tua língua, os teus olhos, a tua boca, os teus dentes, amo os teus braços, as tuas mãos, braços, pernas, pés, e atravesso a peito a tua nuca quente, o teu peito a nado, sou líquido – vejo pelos teus olhos – todos – beijo-te os tornozelos, se penso em escrever um poema sobre o fogo lembro-me da bombeira voluntária de vinte e um anos que morreu a combater os fogos – con-tinuamos a subir – são 6:35 da manhã e a cidade acorda por ti adentro,



Vejo por trás de ti Por trás de nós Por dentro de nós,                                                                                   

a cidade acorda: o sol dos teus olhos a injectar-me no peito uma Vontade Nova – Em tudo Nova – Amo tudo o que ferve a noite láctea que te atravessa o peito de Calor Ode que ferve e liga pelo skype, nado por ti adentro.



 Nuno Brito

sexta-feira, 8 de maio de 2015

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Carla Diacov

queria sondar o excêntrico intocável através do sangue da fulaninha
queria procriar e queria trucidar com a pressa do passo
lembra?
andávamos
sem a nós nos encontrar
ai meu amor que não chega
ai a melancolia no fundo do prato, anjo  

aquieta essa boca
amanhã alguém morre no samba


Carla Diacov, Amanhã alguém morre no Samba, Lisboa, Douda Correria, 2015.

Carla Diacov

outros experimentos falharam
chorar e seguir com a língua o caminho da lágrima
ralar o cotovelo e seguir com a língua o caminho da gota de sangue
ejacular e seguir com a língua
seguir o fio de sol
feito os trevos do antigamente no jardim
aqui
desde tanto
uma rua vazia e japonesa
minha cabeça é pior que o diabo
pior que o diabo que enfio entre as tábuas
as tábuas
desde que tanto cheguei aqui
é o diabo
melhor que seja
digo
a cor que isso vai tomando
sei que estou viva porque me vejo nos olhos do diabo
sei que respiro
porque o tenho tomando meu hálito
sei nada dos meus medos
porque sua cabeça linda, vermelha, tríplice
guarda noturno sonâmbulo diário crepuscular
ninguém meu amorninguém como nós conhece o sol*
meu diabo
às barbas do meu diabo
suas orelhas amplas
suas marcas nas minhas paredes
nasci para ser umidade cor de concupiscência
pensei
me visto de alçapão e choro
mas estou pelada
mas estou calva
estou feia e fútil
basta
basta quando que sou o alçapão
sou possuída e inquilina
céus
eu sou o alçapão
espia:
o diabo é minha carne pênsil.
* Sebastião Alba


Carla Diacov, Amanhã alguém morre no Samba, Lisboa, Douda Correria, 2015.

domingo, 19 de abril de 2015

Eugénio de Andrade

XXIII. A uma cerejeira em flor

Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira,
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja:
sentir o tempo, fibra a fibra,

a tecer o coração de uma cereja. 


Eugénio de Andrade, Primeiros Poemas, As Mãos e os Frutos, Os Amantes Sem Dinheiro, Porto, Limiar,1978.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

OS BEIJOS QUE VAIS DAR



À Gisel

Na entrada e na saída do metro, nas carruagens, rápidos, longos, os beijos que vais dar na praia, na montanha, no carro, as mãos que vais dar, rápidos, longos, o Sol que tantas vezes se vai ver a ele próprio nos teus olhos, os beijos no elevador, no carro, na faculdade, que vais dar, as mãos rápidas, os braços que te vão abraçar, os sinos passados, fotografias, as torres que vais subir, os espelhos todos em que te vais ver, segura, extremamente segura, linda, feia, obcecada, feliz, vazia, cheia, gorda, magra, dando-lhe as costas, experimentando vestidos, feliz, sentindo que a vida é um mergulho, dando a volta, que não há tempo, que há muito tempo, extremamente feliz, a euforia, o tédio, o que vais ver e dar, os sonhos abandonados, os sonhos realizados, a salitre depois do mergulho, o sol que vai ficar sempre dentro de ti e que tantas vezes se vai ver ao espelho em ti — e dentro, a corrente de vida segura, a felicidade extrema, a felicidade-mergulho ou a felicidade-estrela, as portas que vais abrir, a vida com todas as suas pegadas, dias vazios, dias citrinos, dias de chumbo, de calor ou de frio — mas dias de ganhar sempre e ganhar sempre contra ninguém, vais sentir neve nos olhos, neve nos pés, abraços nos polos, abraços no centro, um olhar para cima que te vai libertar, sentir-te protegida, abraçada, ter recordações que te vão magoar, que te vão fazer mais forte, que vais ter que esquecer, os beijos que vais dar — no metro, rápidos na subida do autocarro, atrás, dentro, fora dos prédios, a chuva e o vento que te vai bater, todas as cores que vais vestir, todas as formas que vais tocar, sentir, modelar, guiar e ser guiada, pela estrela ou como estrela. Mas pensa, guarda e mantém, em todos os momentos, que está sempre ao teu lado o Capitão Soninho, ao lado de todos os beijos e de todas as páginas que vais virar, marcar, reler, saltar rápido, comer — páginas, capítulos marcados, sublinhados, limpos, abandonados, livros que vais esquecer numa paragem, num autocarro, ou que vais querer incendiar, poemas que vais deixar em sítios a que não voltas — acidentes voluntários ou involuntários, conquistas, perdas que não existem, ajustes — páginas rápidas, demoradas, relidas, reescritas, apagadas, riscadas, escritas nas margens, escritas no fundo, escritas por cima: sempre escritas por cima com o privilégio de renovar, em várias cores e fundos. Em muitos espelhos te vais sentir desejada, sozinha, cheia, desejada com mais força, um diadema verde, o cabelo liso, puxado para trás, apanhado, comprido, curto, pintado, frisado nos dias de verão e a mudança percetível e palpável na libido do planeta que sempre gira sem que nos demos conta enquanto mudam ainda mais rápido as linhas da tua mão, a cada nascimento e decisão — endireitar umas, fortalecer outras, encaminhar, orientar — encaminhar com mais força a vitória, que se for verdadeira, nunca aceitará que haja um único homem derrotado. E em todas elas vais sentir o Capitão Soninho ao teu lado, a dar-te a segurança quando mais precisares de segurança e a dar-te o sono quando quiseres dormir, a vigília quando mais precisares dela. Calor, segurança e milagres quando deles precisares. Sempre, o Capitão, com a estrela debaixo do braço, nos caminhos, túneis, autoestradas, carris, funiculares, elétricos, desertos, decisões, Caminho enfim: num único símbolo resumido; em todo ele, em todos eles, o Capitão ao teu lado com a estrela debaixo do braço e nos seus olhos refletidos os beijos que vais dar — enquanto o Sol se vê a si mesmo, em nova e maior escala, como quem nada nos teus olhos, vindo em raios rápidos outra vez enquanto dormes. Escrevo rápido contigo no colo.


                                                 Nuno Brito

segunda-feira, 30 de março de 2015

FUTURA-TE



Habito a possibilidade, uma casa mais ampla do que a prosa
Emily Dickinson


É um Movimento, sim, porque tudo está em movimento e parar é sempre impossível
Acreditamos na Potência … uma semente de trigo será pão (um matar a fome já futuro e elementar) – uma abelha traz um girassol (futuro) uma vida traz outra vida e um marinheiro são sempre dois marinheiros (Haja mar ou não)
Um Movimento de quê? Literário, artístico, interartístico, para-artístico, real, sim, sempre REAL, porque tudo é Real – hiper-real, neorreal, Surreal, infrarreal, neo-neo-neo-real, Mas sempre REAL – E esta obsessão pela realidade (por mais que queiramos fugir dela)
Quanto à orientação sexual do movimento – Heterossexual e Homossexual e Infra-sexual e Bissexual e Metrossexual e ultrasexual - sempre Muito Sexual, poderíamos dizer que é simplesmente Sexual-Sexual

Movimento – e para onde vai? Para onde o levarem os que nele estão, e para onde o levares tu quando nele entrares e aqueles que tu convides a entrar, queremos pessoas, contacto, pessoas que saibam que só se é imortal enquanto se vive e que saibam que:
Os nomes não legitimam
As pessoas legitimam
As pessoas assinam os seus trabalhos com nomes – mas devem ser os seus trabalhos e essas pessoas que os legitimem lhe deem valor e não os seus nomes.
Quem os recebe deve ser livre para lhes dar valor ou para não acreditar neles.
Futura-te é uma assinatura.
As pessoas das diferentes áreas que quiserem fazer dele parte – Devem assinar os seus trabalhos (Literatura, Artes Plásticas, Cine-video, Música … Intervenção Política, Investigação Científica nas distintas disciplinas, ensaios, artigos de opinião, ou seja Produção Humana … Vida Condensada, sempre perene, algo que passa de umas pessoas para outras pessoas, de umas vidas para outras Vidas, somos Comunicação – não queremos filtros, não vamos filtrar e não queremos ser filtrados – somos uma espécie de Anonymous que não percebem assim tanto de informática – não podemos entrar no site da Casa Branca, não podemos infiltrarmo-nos no sistema bancário do Liechtenstein, não conseguimos provocar um apagão no Dallas ou fazer que a Letónia fique sem internet durante dois meses) mas também somos piratas – tudo o que fazemos assinamos com “Futura-te”
Uma assinatura coletiva que pretende trazer uma mensagem, uma assinatura anónima (porque nela queremos que entrem muitos, se possível todos)
Queremos perder o controlo daquilo que criamos (passa-se sempre com quem cria alguma coisa – um filho, um ideal político, por isso vamos perder o controlo e ainda bem, assim o queremos
Temos noção que se as pessoas (de todas as áreas) assinarem os seus trabalhos com “Futura-te” estarão a fazer uma cedência – publicarão trabalhos que não serão reconhecidos como seus, perderão o controlo deles, e queremos que eles próprios um dia os confundam com outros trabalhos de outras pessoas do movimento

Queremos um movimento internacional e já temos um movimento internacional
Mas queremos um movimento mais internacional porque sabemos que as fronteiras também são espaços – uma fronteira também é um país, um país que faz fronteira com dois estados, mesmo que uma fronteira seja uma linha simbólica, ou um rio, ou uma montanha (fronteira natural) ou um muro (fronteira militar) não deixa de ter o seu espaço. Vivemos nele, nutrimo-nos do contacto.
A Propriedade intelectual deixou de ter razão de ser, sabemos os males e perversidades que delas derivam (mas não somos fundamentalistas) É importante muitas vezes assinar o nome.
Mas sabemos que uma assinatura coletiva (Nas mais diversas áreas da sociedade vai produzir trabalhos mais autênticos e que se afastam dos artificialismos que a defesa de um nome ou a procura incessante de um estilo próprio – outra vez a defesa do nome – provocam.
Não queremos que as pessoas abdicam do seu estilo, apenas temos a noção que quando as pessoas usam um nome, muitas vezes seguram-se a ele, balançam num fio. Ficam obcecadas com o fio. Com a ideia que os outros têm de nós
Mas será que num mundo em que se cortam os clitóris às mulheres para que elas não tenham prazer, se continuam a cortar línguas a pessoas que bateram com a língua nos dentes, se pratica a tortura do pó talco, se urina na boca de afegãos mortos e se pratica a tortura do pó talco, será que neste Mundo valerá alguma coisa pensarmos naquilo que pensam de nós
Acreditamos que para o Mundo acabar terá ainda que Começar
Nós Gostamos do Mundo e queremos um Mundo Melhor, o erro é a nossa casa, os nossos amigos a nossa pátria, temos muita sede e continuamos à procura, Queremos-te.

FUTURA-TE, 2012.

domingo, 29 de março de 2015

Jack Kerouac

They rushed down the street together,digging everything in the early way they had, which later became so much sadder and perceptive and blank. But then they danced down the streets like dingledodies, and I shambled after as I've been doing all my life after people who interest me, because the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars and in the middle you see the blue centerlight pop and everybody goes "Awww!" What did they call such young people in Goethe's Germany? Wanting dearly to learn how to write like Carlo, the first thing you know, Dean was attacking him with a great amorous soul such as only a con-man can have. "Now, Carlo, let me speak-here's what Fm saying ..." I didn't see them for about two weeks, during which time they cemented their relationship to fiendish allday-allnight-talk proportions.


Jack Kerouac, On the Road.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Yvette K. Centeno: O Monte


Anoitecer suave
no topo das colinas

calam-se os pássaros
as lebres e os coelhos
aninham-se nas tocas

sai um morcego
a mordiscar romãs

os gatos sorrateiros
saltam entre os telhados
em busca de algum ninho
ou de algum rato

luar de Agosto

lá em baixo na estrada
conversam os namorados

Yvette K. Centeno

Vasco Graça Moura: num barco no rio

num barco no rio,
num barco subindo
o rio te peço
que amanhã não vás,
que não vás embora
deste rio minho,
que não te separes
do rasto do barco,
dessa ágil espuma,
do vento a passar
pelos teus cabelos
e do sol na cara,
nem de mim que te olho
nos olhos, pedindo.
há gente nas margens?
haverá, não sei.
há velas, motores,
arvoredos, ilhas?
há esquiadores?
pedregulhos, perigos,
sombras da boega?
é forte a corrente?
sei lá. sei que peço
fiques mais um dia
e não quero, não,
que te vás embora.


Vasco Graça Moura, O caderno da casa das nuvens, 2010.

Walt Whitman: One's-Self I Sing


One's-self I sing, a simple separate person,
  Yet utter the word Democratic, the word En-Masse.

  Of physiology from top to toe I sing,
  Not physiognomy alone nor brain alone is worthy for the Muse, I say
      the Form complete is worthier far,
  The Female equally with the Male I sing.

  Of Life immense in passion, pulse, and power,
  Cheerful, for freest action form'd under the laws divine,

  The Modern Man I sing.


Walt Whitman.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Herberto Hélder: Prefácio




Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
— Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.

Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta
do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes —
pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas
um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas, e temos memória
e absorvente melancolia
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.

Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as torrentes infindáveis
das rosas, ou as águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
— Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?

Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.
Alguém viera do mar.
Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
                  — Estas casas serão destruídas.
Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no seu casamento solar, assim
se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,
vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos
da terra
onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos
múltiplas, as caras ardendo nas velozes
iluminações.

Falemos de casas. É verão, outono,
nome profuso entre as paisagens inclinadas.
Traziam sal, os construtores
da alma, comportavam em si
restituidores deslumbramentos em presença da suspensão
de animais e estrelas,
imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando uns nos outros —
comovidos, difíceis, dadivosos,
                           ardendo devagar.

Só um instante em cada primavera se encontravam
com o junquilho original,
arrefeciam o resto do ano, eram breves os mestres
da inspiração.
                        — E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva — tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.

— E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.

Falemos de casas, da morte. Casas são rosas
para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
nos abandona para sempre.
Casas são rios diuturnos, nocturnos rios
celestes que fulguram lentamente
até uma baía fria — que talvez não exista,
como uma secreta eternidade.

Falemos de casas como quem fala da sua alma,
entre um incêndio,
junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
                                             de beleza.


Herberto Hélder, A Colher na Boca in Ofício Cantante, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009