domingo, 10 de maio de 2015

Ode que ferve


Vários comboios se descarrilam dentro do meu peito, várzea à noite com muitos pirilampos acesos:

fervem e cruzam-se todas as linhas –

uma pirâmide de olhares cruzados em fogo, muitas rotundas, auto-estradas, viadutos,

linhas de metro, passa estridente um comboio a alta velocidade, bebo toda a cidade

e caio rotundo no chão -

sinto o suor de todos, o doce espasmo de uma jovem etrusca e todo o

Sol a incendiar-te o sorriso: fizemos um pacto com ele, com a vida com o futuro
(Comboio estranho que derrete) fizemos um pacto com tudo que fluí, as linhas
entrelaçaram-se, sinto a tua pulsação no meu peito e beijo-te os pulsos, a ansiedade

nervosa da cidade, o doce espasmo das borboletas e a Contracção de cada recém-nascido que parte –
A febre recheia a cidade –

O peito cheio de praças e cidades inteiras por dentro, viadutos, túneis, contigo em cada

esquina, dentro de cada café – com o pôr-do-sol dentro dos pul-sos – a injectar o sol
líquido no peito, não há mais caminho para trás – tenho a tua sede de futuro, são seis e
vinte da manhã e a cidade acorda e adormece ao mesmo tempo

– Sinto o calor de todos

os que aquecem – A cidade a subir-me pela espinha dorsal, como uma nuvem branca,
quando te abraço faço um pacto com a Vida

………………………………………………

A cidade chama por nós e faz nós dentro de nós, tudo flui a uma velocidade frenética e todos os poetas futu-ristas, italianos, russos, franceses, portugueses, espanhóis levantam a cortina pesada da noite à velocidade do dia – enchem os teus olhos de sol – bebo por eles toda a cidade, todos eles sabem quanto te amo (cidade industrial, ceroulas, pastor alemão, civilização assustada, seringas e preservativos no chão, cave com vários fundos húmidos) a boca cheia de vidros – lambo-te o peito, os pulsos, os dentes, a língua (uma abelha na auto-estrada) o relógio de sol funciona à noite – se formos rápidos e seguirmos o dia – quando se patina sobre gelo fino a velocidade é a única salvação – e aqui cito todos os que não disseram a frase porque a sabem
e sabem que o tempo corre – Sinto todo o desconforto dos cães à toa antes de serem atropelados estou nas mãos dos fabricantes de carros que atropelam os cães, nas mãos dos operários, nos muros contra os quais urinam, os operários com as suas mãos – com a linha da vida a arder até ao pulso, e no fim do dia as mesmas mãos com a linha da vida a arder, ou várias linhas que se cruzam, a segurar o pulso da mulher, a acordá-la, a segurar o pulso de todas as mulheres dos ope-rários – preciso tanto de calor – sou a sede, a raiva, o medo, a Vontade líquida de estar dentro de ti, sou líquido e fervo por ti dentro, amo os teus olhos, a tua boca, os teus dentes, os teus pulsos, os teus medos as tuas inseguranças, as tuas dúvidas, os teus tornozelos, a tua saliva, a tua língua, os teus olhos, a tua boca, os teus dentes, amo os teus braços, as tuas mãos, braços, pernas, pés, e atravesso a peito a tua nuca quente, o teu peito a nado, sou líquido – vejo pelos teus olhos – todos – beijo-te os tornozelos, se penso em escrever um poema sobre o fogo lembro-me da bombeira voluntária de vinte e um anos que morreu a combater os fogos – con-tinuamos a subir – são 6:35 da manhã e a cidade acorda por ti adentro,



Vejo por trás de ti Por trás de nós Por dentro de nós,                                                                                   

a cidade acorda: o sol dos teus olhos a injectar-me no peito uma Vontade Nova – Em tudo Nova – Amo tudo o que ferve a noite láctea que te atravessa o peito de Calor Ode que ferve e liga pelo skype, nado por ti adentro.



 Nuno Brito

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