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terça-feira, 22 de abril de 2014

Vitorino Nemésio: A Vida e Tempo


Com alma, ideias, tempo, luta
Componho um homem, sou sujeito:
Penso-me livre numa gruta
Como pretérito imperfeito.

De era se faz o meu futuro,
Será será o meu passado
Como da hera se faz muro
Mais que de pedra levantado.

Se horas a nada levam tudo,
Nada nasceu, tudo é que é,
Haja ou não haja Sartre e o mudo
Deus Tudo-Nada havido em fé.

Que ele e Deus mesmo no absoluto
Ser contestado, tão essente
Que se faz Deus na voz que escuto,
Mesmo que o negue, e me desmente.

31-07-1959

Vitorino Nemésio, (O Verbo e a Morte).

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Vitorino Nemésio

Pão Nosso

 Deus deu esta manhã trigo aos moinhos,
Cortava o pão ainda uma faca bota.
Da música dos ninhos não se ouvia uma nota.

Que o pão cortado não deve
Coisa aérea alterar:
Flores, aves, tudo isso é leve
E suor do rosto é pesar.

Pão nosso, quanto mais duro
Mais a água gosto tem.
Linho branco, pinho escuro:
Assim é que sabe bem.


Vitorino Nemésio, (Nem toda a Noite a Vida)

Vitorino Nemésio


 32.

O sol fechou o dia
Sem mão nem chave;
A pouca luz que havia
Deu-a para uma ave.

Então a ave selou
Com seu sono seu ninho,
E a terra toda amou
Na casa do passarinho.

Um ovo é como uma chave,
Mas só abre a vida às penas.
Apetece ser ave,
Ter as mágoas pequenas.


Vitorino Nemésio, (Eu, Comovido a Oeste)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Vitorino Nemésio: O Pão e a Culpa


O PÃO E A CULPA

Desde que me conheço sei o pão
E o corto em companhia.
Por ele me bate o coração,
E em sua dobra quente
Grelava outrora a alegria
De mim e de muita gente.

Uma hastilha de seiva começava-o
Como um fio de luz,
E a eira rasa dava-o
Tal como a rosa de alva a cor produz.

Vinha a nós como o Reino vem na prece,
Sendo feita a vontade ao Lavrador:
Assim numa alma limpa amadurece
A semente de amor.

Era o pão. Chão de pão,
Dizia-se ‑ e era logo;
Caía o gesto à terra, a espiga balouçava,
O tempo, devagar, corria-lhe a sua mão,
E com um pouco de pinho e outro de fogo
A vida clara estava
Naquela combinação.

Hoje, que é pão ainda, e à noite nosso,
Vai-se a cortar, falta-lhe talvez polpa.
Se não parto na mesa o pão que posso
É minha a culpa.

Eu sei o pão de cada dia e trago-o:
Ontem, como amanhã, já hoje mo dão;
Mas, vago, a meio da dentada, trago-o,
E não, não é bem o mesmo, ou então não posso…

Ou pelo menos não é todo nosso
Este que levo à boca, o nosso pão.
      

NEMÉSIO, Vitorino (1955),  O Pão e a Culpa, Lisboa, 1955.