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sexta-feira, 13 de março de 2015

Raquel Nobre Guerra


O FIM DO MUNDO, JÁ SE SABE, COMEÇA SEMPRE
NO CAFÉ DO BAIRRO.
O vietnamita eleva uma maçã acima da cabeça
como se me atravessasse nesse seu gesto corso
— gente que se sabe que está viva, pasto para as
sensações, diria, e isto não quer dizer nada senão
que sigo a forma dos objectos mortos nos dias
para que as coisas passem, que me esforço
por um certo sossego.
Ainda sou essa criança predadora que
empurra a noite para os lados com os dentes.
Acordo com um perfume que não é o meu,
faço contas ao corpo antes de ser bicho
— às vezes penso, esta obsessão não é verdade
estou morta sou infinita
e a manhã despenca como uma grua.
Agora vou ao café todos os dias,
respiro com as raparigas da cidade
para confirmar que a ordem exacta
das coisas me entra pelo pulmão, digo
como é quente e pesado este fato preto,
que vai doendo menos abrir os olhos debaixo de água
que se canta melhor na Praça das Flores
de frente como estás para mim
que eu só queria entrar um pouco
e soprar a musa mais leve
a rigorosa definição do fogo
a força da árvore resumida ao vento.
Mas depois a minha vida é só a minha vida
um olhar bovino treinado
para devolver ao mundo o mínimo insulto
sem me mexer um milímetro.
Agora escrevo diários íntimos
para cumprir o instinto canalha
de quem rouba para ser apanhado
de quem mata pela beleza de um corpo
por onde se enfiou um dos braços
até não saber a que altura se pôs a noite.
E eu já não sei a que altura se pôs a noite,
nem da fraqueza do sol que cai de borco
no cimento.
O café ilumina-se de todos os anjos filhos da puta.
Daqui a pouco sairei de casa
estou certa que daqui sairá o poema mais triste.



                                                                                            Raquel Nobre Guerra.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Raquel Nobre Guerra: Há dez anos que escrevo o mesmo poema

Há dez anos que escrevo o mesmo poema
no mesmo café.
Esta ideia arrumada nesta cadeira triste
todos os dias no mesmo sítio.
Até que me venham bater à porta
ando meio distraída nisto. 

Falam-me da barbárie e dos seus irmãos brutos
mas ninguém falou ainda da flor de Coleridge
nem das pernas melancólicas dos meus amigos. 

Exceptuando isto penso no imenso com os dentes.
Penso num serviço de chá e numa porta de serviço.
Penso num chão absoluto no petróleo e na lixívia.
Penso na tua cabeça enunciativa e és um Rolls
às nove e meia da noite para toda a parte comigo. 

Exceptuando isto talvez não se morra e ninguém
desça à guerra e ao medo senão pelos livros.
Penso no amor e exceptuando isso está frio
e a mudança de hora e a jukebox
e contar-te os meus medos porque penso nisto há dez anos
que penso nisto. 
Cruz na porta da tabacaria e o teu cabelo
cortado à escovinha.
Há dez anos que desconfio do mesmo poema 

forma inteira do homem para diante
                                                e de diante para o abismo  

E poder ser livre e fumar na cama
com a excitação de arder numa linha. 

É que Sócrates nunca escreveu.
Milton ao menos fingia.
No fim de contas caía bem.
Um Kropotkin e uma bica.

E convicção ser do teu signo.
Porque uma coisa nos atraía.
Fome não era adição.
Erecção não era cinismo.
Porque havia motivo para risos. 

Tu nunca te atrasaste.
Tu nunca te mataste.
Porque enfim não mentiste 
que há dez anos que escreves o mesmo poema 

tu que só queres o sol
para descê-lo para descê-lo
ilha dos amores

no mesmo corpo no mesmo casaco
apoiado à esquerda do meu braço. 

Raquel Nobre Guerra, Cadernos de Poesia nº 2, Lisboa, Enfermaria 6, 2014.


sábado, 20 de julho de 2013

Uma Conspiração de Lábios


                                                                            A uma poeta argentina

contra a noite digo a palavra que cairá sobre
os homens de pulsos envolvidos em sangue
isto é o coração onde lhes chego pela garganta
arranco-as da terra à força bruta de braços

contra o medo chamo a mim a escuridão
para induzir suave uma ideia de céu contra 
o próprio céu agora que a figuração da noite
não cabe na forma de a dizermos rapidamente

virão em mim dançando a erudição do seu uso
com plumas e riquezas à boca da água, fugiremos
Reis da cruel justeza do silêncio tão maior
nos aterros que nos coiceiam em rituais de manada 

iremos assim cheios só de viver meditando palácios 
no momento de cair

Raquel Nobre Guerra, in Meditações sobre o Fim, Os últimos Poemas. Lisboa: Hariemuj.