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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

António Manuel Couto Viana. No Sossego da Hora



Vou espalhar alegria
Pelas ruas!
(Sempre este pasmo ou esta nostalgia
Nas faces imprecisas, lisas, cruas.

Bocejos largos, fundos, nos passeios;
Fúteis conversas calmas nos cafés;
Nem desesperos, nem anseios
- Corpos sepultos a milhares de pés.

Gestos lodosos, lentos, limitados:
«Custa tanto estender a mão, amigos!»
E todos os olhares estão parados
Aquém da negra estreita dos postigos.)

Vou pois, soltar no ar,
Como um balão de cor,
Esta vida que tenho para dar,
No modo simples de quem dá uma flor.

(Não há futuro que não seja hoje
Se vou a perguntar quem me responde?
Uma criança canta e o medo foge
- Jogam as sombras ao esconde-esconde.)

Olha o balão subindo!
Menino, olha o brinquedo que te dou:
Não é feio nem lindo
- É tal qual o que sou.

Leva-o pra casa preso por um fio
(Dói a excessiva fuga no espaço):
Vem encher de promessa este vazio!
Vem encher de sentido este cansaço!



António Manuel Couto Viana. 60 Anos de Poesia. Lisboa: INCM, 2004.

António Manuel Couto Viana. Pórtico


 Seja a minha poesia delicada,
Redondo afago em corpo feminino;
Grácil, viril, como uma espada;
Pura como um desejo de menino;

Em lhe bulindo o Sol, seja um brilhante;
Doce qual uma nota musical
- E que eu me espante
De tê-la assim criado natural.



 António Manuel Couto Viana. 60 Anos de Poesia. Lisboa: INCM, 2004.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

António Manuel Couto Viana. As Rapinas Rapaces


Do cerne da calúnia,
As rapinas rapaces
Buscam a morte, o oiro,
Em lascivas caçadas.
Escorre-lhes das presas
o sangue, a amarga lágrima:
teu fuzil, caçador
não as encontra n’alma:
ocultam-se na terra,
no coração da carne!

Vibram rasteiro voo
As rapinas rapaces
nas caves inundadas
de fumo, álcool, escarro.
Na órbita das órbitas,
Roçam balofas asas;
Com duro bico imundo,
Picam luar e graça;
E devoram, com gula,
Meretriz e pederasta.

Na época do cio,
As rapinas rapaces
Aninham-se nos versos,
Espojam-se nas camas,
Toldam, em cada espelho
As virgens e os rapazes,
Alarmam o silêncio
Das furtivas passadas
E exibem um lençol
De poluídas pragas!

Plo tempo que não cessa,
As rapinas rapaces
Pairam sob a cabeça
De crua divindade.
Nada as destrói. Existem
Como hóstia nos altares
E adornam-se de pomba
E cravam-se de farpas
E gemem e suplicam
E morrem e renascem.

Aviso de extermínio,
As rapinas rapaces
Apontam-se com pedras,
Lumes, lixos, espadas
ou beijos repetidos
ou águas perturbadas
ou a mulher azul
ou o brinco de prata
ou o aço do braço
e o cristal da garganta!

Quanto é impuro e atroz
As rapinas rapaces
Arrastam para o ninho
Onde me encontro e canto.
Meu lirismo se afoga
Em palavras..., palavras...
Atinjo a extrema forma!
Destruo-me de imagens!
E mordo, com seis dedos,
O ventre da verdade!


António Manuel Couto Viana, Relatório Secreto, Lisboa, Verbo, 1963.