segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A rua mais estreita



Numa das ruas mais estreitas da cidade há velozes migrações humanas que aos pássaros parecerão demasiado rápidas, manchas confusas num movimento estranho, observadas de cima para baixo entre as duas filas de telhados que quase se tocam, ali onde um gato pode facilmente saltar para o outro lado da rua; é uma das ruas mais estreitas da cidade, a mãe que agora amamenta a filha no último andar raramente vem à janela, há também pouco sol para secar a roupa. Ali onde há pouco um se gabava de que com aquela gaja tinha sido como foder com duas focas ao mesmo tempo, onde tudo é deixado como a uma casa de penhores colossal, há poucos minutos um homem tirou do dedo o anel de casamento e deixou-o ali ficar, na rua, para sempre, em troca de outras migrações, (variantes da fome), que essa velhinha que pode ter só 37 anos procura no chão, a pedra mais pequena, mais branca da rua. Parece-se ao fantasma de uma gaivota - paralítica, sem asas e impossibilitada de olhar para cima, deverá haver um qualquer mito grego para ela, um castigo dos deuses por alta traição, a falsa previsão sobre o futuro de uma cidade que logo é queimada pelos inimigos do rei. Estar sempre na mais estreita linha que separa os homens e os animais, presa àquela rua como os fios de secar a roupa por baixo das janelas que ali são quase inúteis. Às vezes uma pequena linha de luz atravessa a janela e ri-se ao encher o quarto onde a mãe amamente a filha, uma corrente de vida que se expande e ilimita quando pensa em migrar para fora da rua, e a luz dá em cheio nas duas, no sorriso das duas, no quarto todo, corrente de luz que se ilimita e acende, mesmo depois do sol se esconder por trás das casas. Pouco tempo de exposição que não apaga nem quebra uma corrente, uma vontade, um laço - Há uma filha entre os braços - a migração dos pássaros que no fim do Verão partem para África para voltarem no ano seguinte - Em busca de calor e comida, eles não poderiam perceber as velozes migrações destas ruas, destes grupos que se formam e dissolvem à velocidade de certos sons, que se rodeiam rápido e desfazem ainda mais rápido, em círculos ou filas que se tornam manchas e desaparecem a correr - que aparecem rápido demais e caem rápido demais - que sobem e baixam rápido as escadas seguindo outras manchas que abrem as suas portas, que se aninham e encostam aos muros como dormideiras. Fiéis a esta linha entre a vida e a morte como as gaivotas às cidades marítimas. Numa das ruas mais estreitas da cidade há migrações que os pássaros não entendem – só nisso, talvez, são mais livres que os homens.


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