quinta-feira, 15 de janeiro de 2015


Os poemas sobre barcos

Falamos de barcos e gerações sem falar de barcos e gerações, porque os símbolos já se partiram em certos olhares.

Talvez os textos mais perfeitos do nosso tempo estejam a ser escritos na nossa língua e falem do sepultamento dos navios, talvez só possamos falar sobre barcos, de países inteiros que se sentam à volta de uma mesa, de bandeiras que se abraçam.

Talvez só possamos falar de barcos numa cama, nas traseiras de um livro, com o Livro de Cesário Verde como mastro, vela e capitão do olhar, Guardador de Rebanhos todo sublinhado a verde - A minha pátria é a língua portuguesa e a minha família é o meu país – e talvez não haja Portugal, mas sim uma mistura ignóbil de "estrangeiros do interior" a governar-nos e a estropiar-nos o resto do que somos. (Pessoa, Carta a um herói estúpido) - Talvez esteja apenas cruel, frenético, exigente e só já não queira ver mais sofrimento, em nenhuma cara do meu país, que é sempre a bandeira do meu país – Olhamos em diagonal, quase a meia haste – uns dentro dos outros – Sabemos sempre do que falamos quando falamos de amor, só não podemos perceber – quando o coração acelera, porque é que essa bandeira chora, bebe e treme, porque é que ela nos abandona, porque é que não a abraçamos no tempo certo. 

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