sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

As mães de Ayotzinapa*



Vivos os levaram, vivos os queremos
Cartaz usado nos protestos que se seguiram ao massacre de Ayotzinapa

Há as que nunca desligam a televisão para ver os filhos pintados em todas as faixas das manifestações e numa delas ver escrito a fundo negro que Um País que semeias corpos colhe tempestades. Há as que as já apagaram para sempre e agora servem de prateleira aos últimos retratos dos filhos. A vida foi ali deixá-las nos troncos mais finos como pulsos onde estão gravados os nomes dos filhos. A fina pele dos barcos, os seus nomes nos pulsos. Há ainda os corpos que se estendem nas pontes pedonais que atravessam as estradas do norte, os coyotes e a peregrinação das mulas, os pés inchados de caminhar no deserto, tapetados por baixo com erva de marijuana para não deixar pegadas no deserto. Podia imitar aqui essa subida frágil para norte, como uma árvore, vista de cima, a fila dos homens, o tronco grosso e central na linha férrea da Bestia, o comboio que começa em El Salvador, até os troncos mais finos do norte, cada vez mais finos quando atravessam o deserto de Sinaloa ou a Baixa Califórnia, e os que já muito finos e quebrados se dividem ou partem em Tijuana, os homens que se perdem no deserto, como paus finos partidos, os que chocam num muro uni-nacional, como tangerinas atiradas contra a parede, os troncos que ficam no rio e não chegam a ser molhados. Há os que chegam, os que tiveram filhos, ramificações que nunca vão regressar, os que mesmo partidos desistiram de voltar à raiz, porque nascidos da mesma semente não voltariam a pisar uma terra que semeia corpos. Há também os que foram forçados a regressar - depois de limpar os bares mais sujos de Las Vegas, a esta alegoria débil de uma árvore forte, onde todas as folhas estão acesas, entrelaçadas de luzes e celebração até na morte Há as mães de Ayotzinapa, que quando querem desistir, bebem mais um pouco de pulque, com outros filhos nos braços. Trabalham sem falar, não falam espanhol -falam mixteco e falam sempre no presente. Mesmo depois das evidências da fossa comum, dos corpos queimados com gasolina, uma delas diz a apontar para uma cama de ferro: Esta é a cama dele, Eu estou à espera que regresse, todos os dias estou à espera que regresse. Uma ou outra compra qualquer jornal sensacionalista para ver uma cara que seja sua, uma impressão que reconheça, uma pegada, em qualquer deserto que seja, que desminta um país que semeia corpos. Falam em mixteco, desconhecem o espanhol e como em quase todas as línguas indígenas o passado é um tempo pouco usado - Há uma língua do presente porque há um passado sempre pronto para ser dissolvido.
A mãe aponta para a cama e diz: Esta é a cama dele, o meu filho dorme aqui.


*O Massacre de Ayotzinapa deu-se em 26 de Setembro de 2014 quando 43 estudantes se dirigiam para uma manifestação contra o abuso do poder local, alguns dos corpos foram queimados e arderam durante várias horas até as cinzas serem atiradas ao rio, outros foram enterrados numa fossa comum. O governador de Ayotzinapa deu a ordem do massacre que foi levado a cabo por grupos de narcotraficantes fortemente militarizados. 

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