terça-feira, 18 de outubro de 2016

O Desenhador de Sóis V.


Há no centro de tudo um tambor potente: a sua respiração é profunda, ela é o centro da vida. O coração de trezentos cavalos bate também no centro de um único homem. Falo do corpo e dos seus caminhos de luz, de uma ânfora, de um barco ao sol; Um rio não acaba nunca, a sua corrente adentra-se numa água maior, não param nunca de se misturarem as águas. A terra quente, a respiração dos homens, abraçam-se no mesmo batimento. Falo do corpo, dos seus pulsos potentes, dos veios azuis, (de uma música do centro) dos cabelos por trás das orelhas, de um riso cheio de criança, dos poetas que viveram antes de nós; A terra quente, a respiração dos homens, abraçam-se no mesmo movimento.

A Vida é um canto do fogo.

O canto é alto e colossal e perfeito como um remador antigo. A respiração da estrela é o centro da estrela, a sua explosão de luz em todas as direções. Esta terra treme e move-se e está viva; e gira à volta de uma esfera maior, e a sua terra é mineral; é a terra de um milagre. E tudo – absolutamente tudo – está vivo e treme. Este é o movimento: a mãe do canto - Falo de uma pulsação segura e quente e húmida, de um centro potente; falo da fluorescente respiração da terra.  Do seu canto de fogo.

Há no centro do poema um farol imenso que nos mostra as linhas das costas, as pequenas línguas de areia que se adentram pelo mar, planícies, golfos, paredões, dedos finíssimos de terra, geografia humana, enfim, (a sua reprodução celeste em tudo). Há no centro do poema um farol que nos permite ver de cima. Ali, onde acaba o verso, onde as ondas se quebram, onde os fogos se cruzam. Ali mesmo, no centro, a vida nasce.  


Nuno Brito


Sem comentários:

Enviar um comentário