domingo, 6 de abril de 2014

As Estrelas Suicidas de Tule

“Os segredos contam-se melhor debaixo de água.”

Foi com Maria Puig, a hermafrodita, que comecei a
ouvir tango. Primeiro orquestras ligeiras, depois Gardel. Na
altura, ela fazia a sua tese de mestrado sobre Tristan Shandy.
Preparava também, em conjunto com um musicólogo e um
fotógrafo, a obra O Tango Durante a Segunda Grande Guerra.
Era uma encomenda de um dos maiores grupos editoriais
franceses.
No centro da sua sala havia um velho gramofone que
tocava repetidamente a Munequita de Paris. Outras vezes
Nagasaki blues de Mina.
Eu sentava-me no sofá e lia O que é a Literatura de
Sartre, ou uma revista sobre tatuagens. Ela ia mudar a agulha,
eu continuava no sofá. Um dia vi, no espelho do seu
quarto de banho, uma frase curta, escrita a baton. Dizia só:
Um reich de leite– A caligrafia pareceu-me sexy, e a frase
escrita muito devagar e com um pulso seguro. Não achei
estranho a frase não ter verbo, não ser uma oração, mas
apenas uma espécie de complemento incompleto: De quê? –
Perguntei-lhe – ela sorriu e voltou a colocar a agulha no
começo da música.
Mostrou-me no mail algumas fotos que tinha recebido
para ilustrar um dos capítulos da obra. Pessoas a dançarem
em grandes salões europeus e americanos. Cadilacs com
casais abraçados fora ou dentro dos carros.

Um Reich de leite?
O quê?
Como era o leite?
“disse que era gordo”

Mostrou-me um texto seu, dividido em cinco partes. Explicou-
me que fazia parte de um projecto que tinha para uma
novela fragmentada.

1.
Fizemos amor durante muito tempo: Eu, um homem ou
uma mulher; e ela, uma mulher ou um homem. Os nossos
sexos eram uma sugestão e pareciam uma corrente tropical.
Não eram os orgasmos que levantavam a alma, mas o calor e
a respiração – e a Munequita de Paris – no auge de um
orgasmo múltiplo de uma estrela suicida com baton a mais.
Éramos essa estrela reflectida no espelho barroco de um
submarino. Levantei-me e abri a boneca russa, dentro estava
outra boneca, abri a outra boneca, e abri outra e outra e
todas as bonecas que estavam dentro das outras como
memórias tripartidas. A última boneca abri-a com a boca e
sei que isso o excitou. Dentro da boneca estava uma mortalha.
A mortalha tinha escrito um poema de Walser. Era inédito,
como qualquer acto humano. Ele enrolou nela um
bocado de tabaco negro e ficou com atenção ao fumo. Disse
duas ou três coisas sobre a perenidade, o gesto humano, não
sei o quê sobre África. Foi até junto do gramofone e pôs a
música do começo.

2.
Imaginei um país neutro com todos os seus leiteiros a levarem
as bilhas nos caminhos de terra. Os leiteiros a cantarem
que – O seu país não se mete em confusões – Imaginei o
país neutro com o seu povo trabalhador que semeia os campos
de trigo e que colhe o trigo e do trigo faz farinha, e com
farinha faz o pão que alimenta o povo: Dos operários aos
ladrões, dos antiquários aos guardas florestais. Imaginei
todos os seus bosques recheados de prostitutas. Imaginei-as
a enrolar o preservativo no toalhete. A passarem o toalhete
no rabinho dos impotentes para que o seu orgasmo seja em
tudo pujante e nacional. Imaginei todos os pedófilos do meu
país a olharem para o mar, a verem-no masturbar-se nas
pernas salgadas das meninas, em ondas cordeirinho, que
umas vezes trazem búzios e conchas pequenas. E que, de
vez em quando, trazem estrelas e outras vezes não trazem
estrelas.

3.
Os funcionários internaram a rainha na ilha de Cápri. Aí a
rainha chorava cal viva porque morrera o seu amigo. Uma
lenda antiga dos pescadores do golfo de Nápoles explicava
que, na impossibilidade da rainha chorar algo líquido, as
estrelas-do-mar começaram a aparecer em grande número
nas praias entre Herculano e Nápoles. De manhã todos
encontravam as praias cheias de estrelas-do-mar. Noutras
manhãs encontravam as praias cheias de soldados. O mesmo
fenómeno se passava na Normandia.

4.
Eram grupos de meninos e meninas que encontravam as
estrelas-do-mar, e as viravam ao contrário para lamber a
parte branca e adocicada que era o seu choro: Um líquido
espesso, como o sémen dos cavalos-marinhos. Um choro
que parecia leite gordo e doce com muita nata como o leite
das baleias. As meninas metiam as pontas das estrelas nos
ouvidos e ouviam as histórias da Rainha internada em Cápri:
Estávamos no início da guerra.

5.
Era uma espécie de leite, mas não era leite, era segredo
líquido e quente de uma rainha. O leite sabia também a
outras histórias mal contadas. Porque as estrelas-do-mar
sabiam muitas histórias sobre a emigração ilegal de África
para as Canárias. Muitas vezes espreitavam a boca roxa, com
os lábios grossos de um nigeriano inchado pela água, que se
tinha deixado ir ao fundo. Mas não é só isso que as faz chorar.
Sabem também boas histórias sobre a guerra que contam
aos meninos que as descobrem pela manhã. Uma delas
é a de um capitão de um submarino francês que em 1940
desceu ao fundo do mar do Norte para uma missão de
defesa da costa. Desligou o radar e forrou o tecto do submarino
com papel celofane azul celeste. Colou nele muitas
estrelinhas que picotou de uma cartolina dourada. Depois de
forrado o tecto do submarino, o capitão pediu que lhe
metessem no seu interior um espelho barroco. Dois tripulantes
trouxeram-no para o centro. Mais tarde os dois
tripulantes embebedaram-se, o capitão ajeitou a agulha do
gramofone e começou a ouvir a Munequita de Paris.
Morreu numa espécie de guerra privada. Todos esses segredos
tornavam o choro das estrelas mais espesso, gordo e
saboroso, como se fosse leite condensado:
memórias de guerra que as raparigas de Cápri lambiam ou
usavam como gel no cabelo para seduzir, com o seu cabelo
curto, um ou outro amigo de quem gostavam mais.


Nuno Brito, Créme de la Créme, Porto, Planeta Vivo, 2011.

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