quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A Variação cromática em "Os Pescadores" de Raúl Brandão



    O Sol já se pôs e não vi o raio verde…
         O Mundo não existe, o mundo é a luz.

Raúl Brandão: Os Pescadores.

A obra “Os Pescadores” foi escrita por Raúl Brandão em 1923. Uma sinopse curta poderia dizer muito genericamente que é um livro de memórias que se focaliza diretamente num tema específico, as memórias do autor no que diz respeito ao mar, às suas vivências na costa marítima portuguesa. A ausência de um trama ou enredo e a ausência de personagens principais afasta esta obra do carácter ficcional, do romance ou da novela. A única personagem propriamente dita é o autor que ao longo dos 16 capítulos narra e descreve vivências, episódios curtos, paisagens, tradições que recorda através de uma memória afetiva – afetiva em relação aos homens que vivem do mar: “Os Pescadores” que dão o nome a este livro.
Um livro de memórias que pode ser visto também como um livro de viagens, de norte a sul pela costa portuguesa, um guia de bordo ou um roteiro. Os diferentes capítulos estão datados no seu início (em jeito de diário, guia ou roteiro). Datados não só no que refere ao mês e ano mas em certas partes no que diz respeito à hora, a referência “Junho de 1923: 7 horas” que nos aponta diretamente para um entardecer. A precisão temporal e geográfica leva-nos até ao estilo do diário: de um memorando de apontamentos.
Entre os títulos dos 16 capítulos, 9 fazem referência direta a locais (regiões, cidades ou aldeias piscatórias, povoações da costa marítima) através de um registo geográfico ou levantamento da costa portuguesa com descrições de grande precisão e rigor em jeito quase de levantamento topográfico. Os diferentes capítulos coincidem praticamente com um sentido de viagem de norte para sul, do extremo noroeste de Portugal, de  Caminha até à ponta de Sagres, o extremo sudoeste de Portugal e da Europa passando pelo Algarve, Tavira e Vila Real de Santo António. Estas descrições miméticas e precisas da costa remetem-nos para o rigor documental que Raúl Brandão impõe a “Os Pescadores”. Remete-nos para o campo da crónica e do documento. Registo documental, e roteiro ou diário de bordo, mas acima de tudo livro de memórias extremamente afetivas com uma condição verdadeiramente nacional, a condição marítima, a maior e mais determinante condição no que diz respeito a Portugal. Afetiva com outra condição, a condição humana dos homens que vivem do mar. Condição Laboral que ultrapassa o ramo do trabalho, condição que rege a vida das comunidades piscatórias. Nesse sentido “Os Pescadores” é um memorial literária a um vasto grupo social. Um registo histórico, sociológico, etnográfico e psicológico de uma intensidade profunda no que diz respeito ao levantamento das tradições, do quotidiano, das crenças, dos ritos, do dia a dia dos que retiram do mar o seu sustento. Registo este também documental e preciso – Raúl Brandão descreve as condições e formas de trabalho das diferentes comunidades piscatórias de norte a sul, os tipos de embarcações, os tipos de rede, as diferentes formas de organização e do trabalho a bordo, os diferentes peixes pescados em cada zona, a forma como era vendido. O detalhe técnico leva a que Raúl Brandão introduza dados estatísticos, descrições minuciosas do ato de pescar em diferentes embarcações e em diferentes regiões, de tradições ancestrais, costumes populares, alguns deles já quase desaparecidos no tempo em que Raúl Brandão compõe a obra.

“Os Pescadores” apresentam autênticos painéis naturalistas de grande riqueza etnográfica, frescos da vida marítima em toda a sua globalidade. São um documento etnográfico, cultural, religioso, sociológico, económico e geográfico daquilo que é a relação entre o homem e o mar. De norte a sul do país.
Raúl Brandão era filho e neto de pescadores, cresceu entre pescadores na Foz da cidade do Porto. O texto começa com a dedicatória: “À Memória de meu avô, morto no mar” elemento para-textual que mais que um reflexo vago nos introduz a verdadeira realidade tratada em “Os Pescadores” – A memória afetiva e a afinidade com uma classe laboral que constituía neste tempo (e persiste ainda hoje) uma camada bastante numerosa da população portuguesa. O Mar é a fonte de recursos destes homens, mas é também no mar que estes homens desaparecem, onde as embarcações frágeis não suportam as tempestades, onde os homens, «os embarcadiços que iam ao Brasil»[1] emigram. Este mar que sustém e alimenta estas continuidades é o lugar da insegurança constante. Os homens partem para o mar e as mulheres esperam. Daí que a condição feminina é aquela que Raúl Brandão vai tratar mais amplamente. A condição da mulher como reflexo social. As mulheres dos pescadores que em terra tecem e consertam as redes. Que vão pelas cidades vendendo o peixe, suportando como varinas grandes pesos, que criam e alimentam os filhos e que esperam os maridos os namorados, os filhos que muitas vezes não voltam. «Meu avô materno partiu um dia no seu lugre; minha avó Margarida esperou-o desde os vinte anos até à morte, desde os cabelos loiros que lhe chegavam aos pés até aos cabelos brancos com que foi para o túmulo»[2], referencia familiar que nos introduz a condição da espera. A mulher espera. É a ela que se ligam todos os sistemas de crenças religiosas ligadas ao mar. Realizam orações conjuntas, vestem-se de luto quando os homens não vêm. A condição da espera é marcada pela incerteza, pautada por um tempo épico que prolonga a dor psicológica. Alguns barcos não aparecem, o mar não devolve certos homens – e aí introduz-se a espera mais violenta, a espera de toda a vida (a falta do corpo para velar). A falta do corpo (da presença visível da morte) do ritual católico de o enterrar, de o ter em terra, perto. Raúl Brandão descreve a morte como uma das constâncias máximas, ao referir-se diretamente aos pescadores da Póvoa diz-nos:
«Como vivem estes homens? Agrupam-se no extremo sul da povoação. Roupas a secar, interiores que são pocilgas, casebres com uma porta e uma janela, e alguns só com uma porta e um postigo aberto na porta. Trapos, velhas redes, raias escaladas ao sol enfiadas num pau. Ao lado apodrecem barcos e estende-se o sargaço. As mulheres escorrem salmoura e por toda a parte há restos de sardinha e filharada. A vida pulula, a vida pródiga e incessante. Dentro dos casebres, uma salinha com uma dependência, a camarata onde dorme o casal, e o falso, para guardar o que ele tem de mais precioso, as redes. A caixa, alguns bancos. Debaixo da cama, o berço dos filhos e panais velhos (…), de noite tudo isto é alumiado pela luz da graxa do peixe, que enfuma as paredes e cheira que tresanda. / Eis como vivem estes homens. Como morrem, dizia-o, muito melhor do que eu, o cemitério da Póvoa que já não existe. Ia-se passando de túmulo em túmulo e lia-se sempre: - António Libó, morto no mar; Francisco Perneta, morto no mar; José Mouco, morto no mar … de onde a onde havia uma redoma de vidro com alguns ossos brancos e mirrados que tinham dado à costa. E depois, seguiam-se os letreiros – sempre! Sempre – Domingos Reigoiça, morto no mar; Joaquim Monco, morto no mar … Todos eles vivem no mar – e morrem no mar»[3].
 A morte está presente no momento em que os homens vão para o mar em embarcações frágeis batizadas com nomes que evocam a proteção: “Senhora dos Navegantes”, “Vai com Deus”, “Senhora da Ajuda” ou “Deus te guie”. Se o homem lida diretamente com a morte através do risco e da violência física, à mulher é dada a condição psicológica da dor, esperar, às vezes sempre, praticar a oração, rezar, pedir, a sensação constante de impotência que lhes pauta a vida. Marcada pelo medo concreto «Logo que casa carrega com todo o peso do lar, cresta-se e envelhece»[4] Com um trabalho tão ou mais duro muitas vezes que o homem: «vendem, carregam as redes, lavam-nas (…) metem o ombro aos barcos para os deitar ao mar. Acabada a pesca, todo o trabalho cabe à mulher, que fabrica a graxa, que trata dos filhos, que faz as redes, as lava e as conserta e que vai vender por esses caminhos fora. vai arranca-lo (o homem) à taberna»[5]
O sétimo capítulo de “Pescadores” tem o título “Mulheres” e nele Raúl Brandão percorre, em jeito de panorâmica, a condição das mulheres em diferentes regiões da costa. Estas mulheres que envelhecem rápido, que lidam com o luto e a espera «Mulheres que têm filhos às ninhadas e que nem por isso deixam de correr as ruas da cidade, com a canastra à cabeça e o pé descalço, o pregão na boca e o mais novo ao colo ou deitado no fundo do cesto com um resto das sardinhas à mistura. Andam léguas, são infatigáveis e já as vi lançar sozinhas as redes do sável, puxá-las para a terra e dividir o quinhão» (P.80). Descrita em traços gerais e com humor: «A de Mira, feia mas esbelta, tem um ar senhoril quase sempre, lava as redes, puxa os cabos, carrega os gigos, cozinha no lar enfumado com dois tijolos no chão e faz a lavoura (…) Em resumo, a mulher trabalha mais do que o homem – trabalha o dobro do homem» (p. 80), «A mulher da Murtosa é baixa e atarracada, e a de Ovar delicada e forte, alta e bem proporcionada, cheia de predicados domésticos e morais. As de Ílhavo passam por as mais lindas, pelo sorriso que encanta, pelo olhar e magia que exalam»[6], «A Poveira, a bem dizer é um homem. Feia e rude, pernas como trancas. Já se tem atirado para dentro das lanchas, obrigando os homens a arrostar com o temporal. Ou eles, ou elas. São mães extremosas e grandes parideiras de filhos para o mar.[7] »
A condição feminina retratada com profundidade psicológica, com precisão de dados laborais, condição que Raúl Brandão descreve com a memória afetiva «Vivem mais do que eles (Os Homens), porque sofrem muito mais »[8].
O capítulo “Mulheres” termina com o episódio da “Rata” que Raúl Brandão introduz de forma concisa «Conheço na Foz esta mulher a quem chamam a Rata, corcovada, com uma saia pelos ombros, a apanhar peixe roído que lhe atiram por esmola – um cação uma raia ou uns punhados de sardinha em dias de fartura. Velha, dura e negra, cheirando a peixe entranhado nos farrapos e a sal de sardinha, vive na Corguinha, entre pedaços de rede e de tábuas que o mar atira à costa. Passa o Inverno na ressaca a apanhar o moliço com as mãos. Não tem ninguém. Não fala nem pede. É a Rata». – Descrição sórdida e concisa que mostra através deste episódio a afinidade de Raúl Brandão com a condição feminina (condição levada à degradação física, à perda da vitalidade, à solidão extrema). Mulher praticamente animalizada através da desumanização, da perda constante. Tal como Cesário Verde usa o retrato da condição feminina como aquela em quem verdadeiramente se refletem as desigualdades sociais. É através da mulher que Raúl Brandão invoca afetivamente a face mais violenta, animalizada da miséria – a quem «Cabe sempre o pior quinhão da vida negra»[9]. O capítulo “Mulheres” termina ainda com o episódio da Rata quando um homem responde ao narrador «O mar levou-lhos todos»[10].
Episódios curtos que fixam uma realidade abrangente. A relação do português com o mar dos finais do século XIX e inícios do século XX. Uma realidade ancestral em que o mar é a realidade omnipresente que abarca toda a realidade destes homens (a vida e a morte). O Mar-Recurso, O Mar-Possibilidade, O Mar-Paisagem: O Mar como constância que rege a vida e a morte destas comunidades. Como livro de Memórias e registo documental e vivo, Raúl Brandão introduz entre os diferentes textos que compõe “Os Pescadores”, dois capítulos com o mesmo nome intitulados “Pequenas Notas”.
Neles Raúl Brandão alterna entre o registo concreto e descritivo de certos aspetos da costa portuguesa: os diferentes tipos de aves, as redes, os peixes, mas também as impressões que lhe transmitem certos locais, sobretudo através da luz e da cor dos diferentes locais. Paisagens descritas com a intensidade de uma grande memória afetiva. Os diferentes locais que ele diz serem não paisagens mas sentimentos, e nesta recriação da paisagem através das impressões, estímulos sensoriais, a memória sensitiva é aquela que transfigura a realidade. E Neste Novo Mundo que Raúl Brandão nos diz que já não existe, que desapareceu (porque é um livro de memórias sobre um mundo de memórias) a luz vai ser o elemento que Raúl Brandão eleva à potência máxima referindo: «O Mundo não existe – O mundo é a luz»,
«Esta Paisagem – mar, rio e céu – entranhou-se me na alma, não como paisagem, mas como sentimento»[11] .Se a paisagem é descrita como um sentimento, um estado de alma a natureza dessa paisagem vai ser imprevisível e marcada pela mudança constante. A paisagem transforma-se de acordo com as variações da luz (respeitando os ciclos naturais do dia e do ano) que Raúl Brandão descreve nos subcapítulos “Luz e cor”, “Nevoeiro” e “Pores-do-Sol” através de quadros de grande intensidade cromática em que a luz, ou a ausência dela, moldam a paisagem (O Mundo) que não existe sem ela, que é recriado a cada instante. Em “Húmus” Raúl Brandão diz-nos: «A sombra é uma grande pintora» e sendo ela (a ausência de luz) que traça que cria novas formas, que nos dá novas imagens e configurações ao mundo – a luz que desenha o mundo que assim não existe sem a sua capacidade recriadora «O Mundo não existe – O Mundo é a a luz». Paisagem modelada, pintada e desenhada pelo Sol “O grande colorista” de Cesário Verde. Sendo que a luz marca, define e cria a paisagem, a memória afetiva e sensorial que induz novas cores e novas formas à paisagem que é então um sentimento e portanto imprevisível, adquirindo sempre novas formas, novos contornos e matizes. As sensações visuais vão ser então as predominantes. Os estímulos sensoriais que o autor absorve e transfigura da luz e da cor concreta é potenciado com os estímulos emotivos, da memória afetiva e impressionista: a paisagem é então composta de mudança e é revitalizada a cada instante. As cores esvaem-se, desaparecem, transformam-se, renascem em novas cores, assim como as formas, os elementos recriam-se «Vejo outra vez tudo; as fisionomias, as coisas, a cor e a luz»[12], «Vou desenterrá-la tal qual, azul e névoas, névoa e azul» e pouco à frente «Além é o Cabedelo desfeito em pó azul» [13].
A memória afetiva cria perceções revitalizadas, impressões de grande nitidez sensorial. A paisagem «entranhada» feita de movimento «A Foz vai doirando lentamente, ano atrás ano, crestada pelo ar da barra, camada de sol, camada de salitre …».
A paisagem interiorizada é movida pelo estado de alma que a redefine «Apareceram primeiro uns flocos no céu, e a luz tornou-se logo mais azul, pegando azul à pele»[14] (Recriação através da luz e da emoção). O Movimento cria novas cores e as cores movem-se: esvaem-se, desmaiam ou intensificam-se. Luz e movimento entrelaçam-se na criação de quadros de grande intensidade cromática em que o azul é uma cor constante. A presença do azul, mais do que cor dominante é elevada quase ao limite da obsessão. É a partir azul (do céu, do rio e do mar) que são descobertas novas cores «Luz a jorros – e o mar em ondulações verdes, cada vez mais transparentes e com reflexos rápidos»[15]; Variações cromáticas através de um exercícios impressionista; expressão das novas cores e formas através do movimento constante, da ondulação emotiva e imprevisível dos sentimentos que são paisagens. Luz constante «a jorros» que desenha as formas através das sombras, da diferente força com que incide nos seres e na paisagem. As cores elevadas à personificação adquirem novas matizes, o azul adquire novos contornos «corre um veio mais escuro e profundo, quase negro, onde um bando de toninhas persegue, logo de manhã, a manta da sardinha»[16].
A minúcia documental alia-se à presença de sensações visuais fortemente impressas através da abundância da cor: do conjunto sensorial (Cor / Tato) em passagens em que descreve a recolha das redes, o fim da pesca e o ato da embarcação (a catraia) regressar a terra: «Saltam no fundo as pescadas de lombo preto, os bonitos, as raias, os capatões e uma toninha reluzente, que os homens matam com os bicheiros. São ruivos de dorso vermelho e doirado de grande cabeçorra cartilaginosa, um peixe rei e cações acinzentados. E algas, algas emaranhadas como cabelos verdes, nos peixes-sapo, na tremelga cor de vinho e na espalmada raia, que abre a boca sufocada; nos peixes-lixas cheios de pique e nas carapaças de caranguejos desajeitados, que correm com os ferrões abertos no ar. E os homens, encharcado e de perna nua, continuam a meter as redes a escorrer para dentro do barco. O fundo da catraia escorrega cheio de água e daquela vida que se debate, misturada e calcada, cheirando a frescum. É uma mescla de dorsos, de escamas, de peles como reflexos molhados, de tons escorregadios e metálicos das savelhas, de ventres esbranquiçados dos linguados que se voltam e mostram uma pele quase humana, de viscosidades e de prata movediça. E as redes continuam a subir».
Este quadro plenamente sensitivo desperta-nos o movimento frenético, desta vida que se debate, a enumeração dos diferentes peixes ainda vivos, das algas (que parecem cabelos) no fundo do barco escorregadio. Sensações olfativas e tácteis (os linguados que mostram uma pele quase humana, de viscosidades e prata movediça). As sinestesias deste enxerto usam sobretudo do efeito Movimento-Cor; a prata é movediça, os reflexos são molhados e os e os tons escorregadios. Elementos ligados às cores são adjetivados com vocábulos que expressam esse movimento. A sinédoque provoca a sensação de uma grande mancha de cores que pulam, vivem e se debatem. Uma mancha de várias cores onde predomina o tom metálico dos peixes mas também o verde das algas, o laranja dos caranguejos, alguns peixes de dorso doirado e vermelho, manchas cromáticas entre homens de tronco nu. A sinestesia é potenciada com o tato e o olfato abrindo-nos um quadro sensorial de ampla vitalidade. O tratamento da cor em Raúl Brandão quase nunca é feito de forma isolada mas em conjunção com outros elementos sensitivos: movimento e cor que comungam também na descrição de paisagens. Grandes panorâmicas em que Raúl Brandão faz uma analogia direta entre a literatura e a pintura, num exercício onde podemos ver paralelismo com Cesário Verde. Em alguns momentos descritivos de grande intensidade cromática, Raúl Brandão faz a referência à pintura «Se eu fosse pintor»[17] no capítulo “De Caminha à Póvoa” e no início de “Pequenas Notas”[18]. Exercício impressionista onde a analogia com a pintura eleva a intensidade das imagens cromáticas, permite visualizar autênticos quadros panorâmicos de grande força visual, onde a cor azul é a mais permanente: «Montedor é uma povoaçãozinha, dava isto com três brochas cheias de tinta – uma pincelada, maior, para o mar azul que não tem fim, até à linha azul do areal – outra para o mar verde e raso dos milheirais, na larga planície que vai de Montedor até Viana – outra enfim verde-escura para o biombo recortado que cinge esta faixa desde Caminha à Foz do Lima. Por fim, dois ou três toques para os montes ensaboados, muito ao longe, e um outro, lilás para um ponto que tremeluz e é talvez Esposende, ou talvez não exista.» - Um exercício de revitalização da realidade que aproxima a linguagem literária da das artes plásticas – A fixação das cores e das formas.  As cores «em três brochas cheias de tinta»: O Azul, o verde e o verde-escuro, uma gradação que evolui da presença omnipresente do azul na paisagem, variações cromáticas da cor matriz que é a do mar, a do céu e do rio, mas também da terra quando vista de longe, a costa recortada quando é vista desde o mar ou uma montanha quando estamos muito distantes dela. O Azul permanente descrito a partir das suas variantes cromáticas, o azul metálico do mar, de que já vimos um exemplo, o azul-verde das ondulações ou os diferentes veios do mar o azul mais negro da água carregada de cardumes que vêm quase até à superfície. Retomemos a importância vital da cor azul em Pescadores com a citação: «O Mundo é azul» ou a importância da luz como Criação (a que cria as cores, que permite vê-las).
A Luz e através dela a cor são potencializadas com o efeito de movimento, por vezes febril – Luz/Cor/Movimento criam episódios de grande intensidade visual que se aliam em sinestesias amplas, sensações cinemáticas, pictóricas que nos fazem lembrar a poesia plástica de Cesário Verde com que Raúl Brandão comunga a extrema importância dada à Luz, à cor, ao movimento como conjunto unitário, mas também o ocultamento do eu que narra e a revitalização da paisagem através das impressões internas do autor. Através da criação impressionista o «mar desfaz-se em pó azul» num mundo que não existe, num mudo que é a luz e por isso recriação e movimento constante. Com Cesário Verde, Raúl Brandão comparte também a utilização de um ponto de vista deambulante, desta vez pela costa marítima portuguesa. Num mesmo episódio narrativo temos a perspetiva de um barco de onde se pode ver a aproximação à costa com o ganho de maior nitidez e melhor distinção do casario quando a embarcação se aproxima do porto e a perspetiva da costa em direção ao mar. Olhar deambulatório e abrangente de grandes enquadramentos que provocam o efeito cinemático e de grande minúcia descritiva. Vitalidade visual, a sensação fundamental em «Pescadores».
Se a luz permite todas as cores, a cor azul cria as suas variantes cromáticas em diferentes gradações das quais os diferentes tons derivam. A luz azul constantemente referida é ligada à Criação, à constância da vida costeira. Os diferentes cromatismos são reimpressões do azul elevado à obsessão, elevado à totalidade hiperbólica «O Mundo é Azul» e «São nove horas. O azul entontece. Perco a linha da paisagem, o verde escuro do pinheiral que vai até ao mar, e tudo isto se me afigura uma grande concha azul, formada pelo mar azul e pelo céu azul»[19].
Outro exemplo da analogia e aproximação / desejo ao mundo da pintura que reflete a importância da luz e da cor em Raúl Brandão é o início das primeiras “Pequenas Notas”: «Se eu fosse pintor, passava a minha vida a pintar o pôr do Sol à beira-mar. Fazia cem telas, todas variadas, com tintas novas e imprevistas. É um espetáculo extraordinário. Há-os em farfalhos, com largas pinceladas verdes. Há-os trágicos quando as nuvens tomam todo o horizonte, e outros doirados e verdes, com o crescente fino da Lua no alto e do lado oposto a lua enegrecida e compacta. Tardes violetas, neste ar tão carregado de salitre que torna a boca pegajosa e amarga, e o mar violeta e doirado a molhar a areia e os alicerces dos velhos fortes abandonados»[20].
Nestes dois quadros panorâmicos podemos distinguir um conjunto amplo de cores e tons, as largas pinceladas nas telas com que descreve, em analogia com as arte plásticas, as inúmeras variantes cromáticas possíveis de um por do Sol, as «cem telas» com «tintas novas e imprevistas», os tons verdes e os tons trágicos, violetas, o tom violeta e doirado do mar»: uma geografia revitalizada através de impressões novas em que novas cores seriam necessárias. Raúl Brandão mostra através desta riqueza cromática a impossibilidade não só da literatura em descrever o estado emocional e a paisagem em que se encontra (num balanço em que o mundo exterior e o mundo interior se mesclam e confundem) mas também a impossibilidade da própria pintura em descrever esta paisagem-estado para a qual seriam precisas cores novas como os indefinidos verdes trágicos e é o mar como elemento manifestado através do azul que recria as emoções. A paisagem é ao mesmo tempo um estado emocional interno que muda permanente. A ela Raúl Brandão imprime as sensações externas e internas e é ao mesmo tempo paisagem e estado emocional. O Azul e as suas tonalidades variantes são ao mesmo tempo atributos geográficos e estados emocionais amplificados pela memória afetiva. Neste assumido exercício de reimpressão impressionista da cidade há um ponto de luz que pode ser a cidade de Esposende mas pode também não a ser.
O tom e estilo narrativo de “Os Pescadores” balança equilibradamente entre a descrição documental, o guia de bordo e o diário e  o livro de memórias não se podendo introduzi-lo apenas e unicamente num destes géneros. Se a vida dos que vivem do mar «dos que andam sobre as águas do mar»[21] é o tema e o motor deste livro, as memórias afetivas e emocionais em relação à paisagem humana e geográfica que o povoa é um elemento recriador das impressões desse mundo «que já não existe». A cor nunca é descrita isoladamente do seu movimento «A luz desmaia»[22], «A natureza esvai-se entontecida» e «o azul entontece». Luz e cor personificadas e criadoras de movimento. Esvaírem-se e esfumarem-se são termos que nos ligam diretamente ao impressionismo na pintura, à ao efeito de movimento das cores, à indefinição dos contornos em que pictoricamente os elementos da paisagem como o céu, a terra, as casas, árvores e pessoas se parecem fundir numa unidade que reflete um todo orgânico: impressões da paisagem. Essa simulação do movimento através das cores, técnica pictórica impressionista é transportada por Raúl Brandão para a literatura de uma forma plena «Caminha esta manhã é um sonho doirado que – tenho medo – se vai esvair na atmosfera»[23]. A plasticidade das descrições cria autênticos painéis vivos (o violeta, o doirado, o prateado, o verde, ou negro do mar) são reflexos rápidos de impressões afetivas de grande vivacidade sensorial e emocional. Referindo-se diretamente à luz solar de um fim de tarde Raúl Brandão diz «O Sol já se pôs e não vi o raio verde». A luz tem já a cor da terra em que bate (sendo ele unicamente luz) – A força desta imagem abre-nos um amplo campo sugestivo em que o tratamento da cor é levado à máxima experimentação, vivacidade e impacto sensorial. Imagem plenamente emocional e sensitiva que é uma constante em Raúl Brandão, a luz parece fugir, esconder-se, aparece com mais força através das diferentes tonalidades “as Novas Cores” plenamente nítidas ou esbatidas incidindo e alterando a paisagem.
Algumas das personagens dos contos “Um marinheiro” e “No mar” incluídos no primeiro livro de Raúl Brandão “Impressões e Paisagens” aparecem figuradas em “Os Pescadores”, desta vez num texto desprovido de trama e integrados em pequenas passagens que procuram dar uma unidade a este conjunto (O Homem e o Mar).
O registo documental que Brandão confere a este livro é aliado ao registo emocional. “Os Pescadores” são um documento vivo no que confere à fixação dos costumes, das tradições, das crenças, dos medos, do trabalho, das técnicas, da etnografia, da sociologia. Um documento histórico em fim da condição, do Pathos, da Vida que representa viver do Mar, tirar do Mar a subsistência e tê-lo como elemento constante, íntegro e imprevisível. Um registo documental da condição feminina, das condições de trabalho «dos homens que andam sobre o mar». Um registo afetivo e recriador. Recriação que se manifesta pela modelação e criação impressionista e simbolista. Um livro plenamente unitário mas que vive do fragmento, do episódio curto, da integração desse episódio num todo documental. Livro de memórias (dos pescadores, dos vendedores, dos calafates, dos que trabalham na construção naval, dos lenhadores que cortam as árvores para os barcos, dos faroleiros, dos carregadores de peixe para o interior, dos camponeses que vêm comprar o sargaço que servirá de adubo às plantações de milho) – afinidade extrema de Brandão com uma classe concreta que quer no mar, quer na terra subsiste e vive do mar. Nesse sentido e como realidade nacional, realidade Abarcadora em que mesmo em terra se vive do mar há a fixação emocional de uma condição e nela a presença determinante do retrato da condição feminina.
Termino com a passagem «Que estranho país é este onde os bois vão lavrar o próprio Oceano?» que Raúl Brandão usa para registar um costume ancestral em que os bois entram no mar para que a sua força animal ajude a retirar as redes carregadas de peixe. A tração animal do gado que entra no mar para arrastar as redes pelo areal. Se este costume laboral é fixado, ele mostra a união plena entre a terra e o mar e a grande sugestão cromática que Brandão nos traz é que mesmo a terra é a continuação do mar omnipresente «O Sol doira uma janela, uma eira, uma espigueira, o campo de milho alimentado a sargaço que tem os pés na água» [24], e que os dois elementos se fundem e mesclam perdendo os contornos rígidos (tal como no tratamento das cores) e as fronteiras definidas através de uma geografia revitalizada e de uma geografia humanizada. Nesse sentido, termino com a constância desse movimento revitalizador  «O Mundo é azul».


  
BIBLIOGRAFIA

Brandão, Raúl - Húmus, Lisboa, Matosinhos, Quidnovi, 2008. 

Brandão, Raúl - Impressões e Paisagens, Lisboa Ed. Vega, 1988.

Brandão, Raúl -Os Pescadores, Lisboa, Europa América, 1989.
Machado, Álvaro Manuel - Raúl Brandão: entre o Romantismo e o Modernismo, Lisboa, Biblioteca Breve ICALP, 1984.

Pires, Machado A. M. B. - O essencial sobre Raúl Brandão, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda,1997.

Verde, Cesário - O livro de Cesário Verde, Lisboa, Ulisseia, 1986.


  
Nuno Brito, 2013.


[1] Brandão, Raúl -Os Pescadores, Lisboa, Europa América, 1989, p. 17.
[2] Idem p. 17.

[3] Brandão, Raúl -Os Pescadores, Lisboa, Europa América, 1989, pp. 39, 40.
[4]  Idem p. 83.
[5]  Idem p. 83.
[6] Idem. P. 84.
[7] Idem. P. 82.
[8]  Idem. P. 84.
[9] Idem. p. 85.
[10]  Idem.  P. 85.
[11]  Idem. P. 22.
[12]  Idem. p. 20.
[13]  Idem. p. 21.
[14]  Idem. p. 43.
[15]  Idem. p. 26.
[16]  Idem. P. 26.
[17]  Idem. P. 34.
[18]  Idem. P. 41.
[19]  Idem. P. 31.
[20]  Idem p. 41.
[21] Idem. P. 17.
[22]  Idem p. 28.
[23]  Idem. P. 30.
[24]  Brandão, Raúl -Os Pescadores, Lisboa, Europa América, 1989, p. 31.

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