quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Construção: Ondjaki


construção da casa [e do interior da casa]

construção de uma fogueira [e do fogo, e da chama, e das cinzas]

construção de uma pessoa [do embrião aos livros]

construção do amor

construção da sensibilidade [desde os poros até à música]

construção de uma ideia [passando pelo que o outro disse]

construção do poema [e do sentir do poema]


[há qualquer coisa de «des» na palavra construção]


desconstrução do preconceito

desconstrução da miséria

desconstrução do medo

desconstrução da rigidez

desconstrução do inchaço do ego

desconstrução simples [como exercício]

desconstrução do poema [para um renascer dele]


construção é uma palavra

que causa suor

ao ser pronunciada.


penso que esse seja um suor bonito.


Ondjaki.


Fala amendoeira: Carlos Drummond de Andrade


Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza – essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista deparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre céu e chão – névoa baixa e seca, hostil aos aviões. Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes. Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino.

Essa árvore de certo modo incorporada aos bens pessoais, alguns fios elétricos lhe atravessam a fronde, sem que a molestem, e a luz crua do projetor, a dois passos, a impediria talvez de dormir, se ela fosse mais nova. Às terças, pela manhã, o feirante nela encosta sua barraca, e, ao entardecer, cada dia, garotos procuram subir-lhe pelo tronco. Nenhum desses incômodos lhe afeta a placidez de árvore madura e magra, que já viu muita chuva, muito cortejo de casamento, muitos enterros, e serve há longos anos à necessidade de sombra que têm os amantes de rua, e mesmo a outras precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes.

Todas estavam ainda verdes, mas essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, numa gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom – cor final de decomposição, depois da qual as folhas caem. Pequenas amêndoas atestavam seu esforço, e também elas se preparavam para ganhar coloração dourada e, por sua vez, completado o ciclo, tombar sobre o meio-fio, se não as colhe algum moleque apreciador de seu azedinho. É como se o cronista, lhe perguntasse – Fala, amendoeira – por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:

--- Não vês? Começo a outonear. É 21 de março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono. Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações.

--- E vais outoneando sozinha?

--- Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.

--- Somos todos assim.

--- Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exatamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.

--- Não me entristeças.

--- Não, querido, sou tua árvore-de-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outonize-se com dignidade, meu velho.

(Carlos Drummond de Andrade) 




quinta-feira, 18 de novembro de 2021

José Craveirinha: Grito negro

 


Albino Magaia: Flor nascida do silêncio

Tu nasceste

da sucessão de noites

grossas de silêncio

quando aqueles que sofriam

te imaginavam tão bela

como flor que és


- Olá liberdade!


(1983)

Albino Magaia. In Antologia da nova poesia moçambicana. Centro Cultural Franco-Moçambicano, 1988.


John Lee Clark


When we say good morning 
In Japanese Sign Language
We pull down a string 
To greet each other in a new light 


John Lee Clark, in Don’t read poetry, (Stephanie Burt)




quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Tânia Tomé

Moçambique

Quando me sento descalça
sobre o sapato do menino pobre
que me enche o pé
muito mais que outro qualquer
me lembro que existir
não é sozinha
é com toda gente.
E me lembro
que tenho de embebedar-me de ti
Moçambique
Porque tenho saudades de mim



segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Agostinho Neto: Criar



Criar criar
criar no espírito criar no músculo criar no nervo 
criar no homem criar na massa
criar
criar com os olhos secos

Criar criar 
sobre a profanação da floresta
sobre a fortaleza impúdica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar 
criar com os olhos secos

Criar criar 
gargalhadas sobre o escárnio da palmatória
coragem na ponta da bota do roceiro
força no esfrangalhado das portas violentadas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com os olhos secos

Criar criar
estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre as lágrimas do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos

Criar criar
criar liberdade nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em forca simuladas
criar
criar amor com os olhos secos.


Agostinho Neto. Poesia Angolana de Revolta (Antologia). Porto: paisagem Editora, 1975.