sábado, 18 de novembro de 2023

Messenger: Mary Oliver

My work is loving the world.

Here the sunflowers, there the hummingbird-

Equal seekers of sweetness.

Here the quickening yeast; there the blue plums.

Here the clam deep in the speckled sand.


Are my boots old? Is my coat torn?

Am I no longer young, and still not half-perfect? Let me

Keep my mind on what matters,

Which is my work,


Which is mostly standing still and learning to be astonished.

The phoebe, the delphinium.

The sheep in the pasture, and the pasture.

Which is mostly rejoicing, since all the ingredients are here,


Which is gratitude, to be given a mind and a heart

And these body-clothes,

A mouth with which to give shouts of joy

To the moth and the wren, to the sleepy dug-up clam,

Telling them all, over and over, how it is

That we live forever.


Mary Oliver.


Emily Dickinson


To the faithful absence is condensed presence.

 To the others—

but there are no others



Emily Dickinson. Letters to Susan Dickinson.

Eu, o Povo: Mutimati Barnabé João



Eu, o Povo

Conheço a força da terra que rebenta a granada do grão

Fiz desta força um amigo fiel.

 

O vento sopra com força

A água corre com força

O fogo arde com força

 

Nos meus braços que vão crescer vou estender panos de vela

Para agarrar o vento e levar a força do vento à Produção.

As minhas mãos vão crescer até fazerem pás de roda

Para agarrar a força da água e pô-la na Produção.

Os meus pulmões vão crescer soprando na forja do coração

Para agarrar a força do fogo na Produção.

 

Eu, o Povo

Vou aprender a lutar do lado da Natureza

Vou ser camarada de armas dos quatro elementos.

A tática colonialista é deixar o Povo ao natural

Fazendo do Povo um inimigo da Natureza.

 

Eu, o Povo Moçambicano

Vou conhecer as minhas Grandes Forças todas.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Três Poemas de Afectos em Ré Menor. Maria Fernanda Morais.




No fundo dos mais belos olhos

eu vislumbro o redondo planeta

mãos que se abrem e deixam nascer

em cada falange um poeta

no fundo dos mais belos olhos

as balas serão palavras

e armas serão canetas

apontadas por poetas

no fundo dos mais belos olhos

não há medo nem terror

as letras são inocentes

cada verso uma flor


***


Dei um beijo

A um beija-flor

Pôs a flor na lapela 

Voou e fugiu de mim

Desgostosa eu chorei

Desamparada caí

Outra ave abraçou-me

Beijou-me o bem-te-vi!

Se virem duas aves felizes por aí a esvoaçar, a dar às asas pelo ar,

somos nós, vamos para Taipus-de-Fora!


***


Partilhemos o canto das aves

nas sombras dos jacarandás

o antes e o depois

do verão e do inverno

o meu abraço terno

aos plantadores das árvores

troncos plenos de flor

que nos dão o colorido

ao cego e ao mendigo

perdidos 

de amor 


Maria Fernanda Morais. Afectos em Ré Menor. A Casa do Livro, Janeiro de 2022.


quinta-feira, 29 de setembro de 2022

When I am among trees: Mary Oliver



When I am among the trees,

especially the willows and the honey locust,

equally the beech, the oaks and the pines,

they give off such hints of gladness.

I would almost say that they save me, and daily.


I am so distant from the hope of myself,

in which I have goodness, and discernment,

and never hurry through the world

but walk slowly, and bow often.


Around me the trees stir in their leaves

and call out, “Stay awhile.”

The light flows from their branches.


And they call again, “It’s simple,” they say,

“and you too have come

into the world to do this, to go easy, to be filled

with light, and to shine.”




Mary Oliver.


Construção: Ondjaki


construção da casa [e do interior da casa]

construção de uma fogueira [e do fogo, e da chama, e das cinzas]

construção de uma pessoa [do embrião aos livros]

construção do amor

construção da sensibilidade [desde os poros até à música]

construção de uma ideia [passando pelo que o outro disse]

construção do poema [e do sentir do poema]


[há qualquer coisa de «des» na palavra construção]


desconstrução do preconceito

desconstrução da miséria

desconstrução do medo

desconstrução da rigidez

desconstrução do inchaço do ego

desconstrução simples [como exercício]

desconstrução do poema [para um renascer dele]


construção é uma palavra

que causa suor

ao ser pronunciada.


penso que esse seja um suor bonito.


Ondjaki.


Fala amendoeira: Carlos Drummond de Andrade


Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza – essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista deparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre céu e chão – névoa baixa e seca, hostil aos aviões. Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes. Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino.

Essa árvore de certo modo incorporada aos bens pessoais, alguns fios elétricos lhe atravessam a fronde, sem que a molestem, e a luz crua do projetor, a dois passos, a impediria talvez de dormir, se ela fosse mais nova. Às terças, pela manhã, o feirante nela encosta sua barraca, e, ao entardecer, cada dia, garotos procuram subir-lhe pelo tronco. Nenhum desses incômodos lhe afeta a placidez de árvore madura e magra, que já viu muita chuva, muito cortejo de casamento, muitos enterros, e serve há longos anos à necessidade de sombra que têm os amantes de rua, e mesmo a outras precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes.

Todas estavam ainda verdes, mas essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, numa gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom – cor final de decomposição, depois da qual as folhas caem. Pequenas amêndoas atestavam seu esforço, e também elas se preparavam para ganhar coloração dourada e, por sua vez, completado o ciclo, tombar sobre o meio-fio, se não as colhe algum moleque apreciador de seu azedinho. É como se o cronista, lhe perguntasse – Fala, amendoeira – por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:

--- Não vês? Começo a outonear. É 21 de março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono. Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações.

--- E vais outoneando sozinha?

--- Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.

--- Somos todos assim.

--- Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exatamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.

--- Não me entristeças.

--- Não, querido, sou tua árvore-de-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outonize-se com dignidade, meu velho.

(Carlos Drummond de Andrade)