sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Jorge Luis Borges

El tiempo es la sustancia de que estoy hecho. El tiempo es un río que me arrebata, pero yo soy el río, es un tigre que me destroza, pero yo soy el tigre; es un fuego que me consume, pero yo soy el fuego.


Nueva Refutación del Tiempo, in Otras Inquisiciones (1944-1946)


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Nicanor Parra: Hay un día feliz



A recorrer me dediqué esta tarde
Las solitarias calles de mi aldea
Acompañado por el buen crepúsculo
Que es el único amigo que me queda.
Todo está como entonces, el otoño
Y su difusa lámpara de niebla,
Sólo que el tiempo lo ha invadido todo
Con su pálido manto de tristeza.
Nunca pensé, creédmelo, un instante
Volver a ver esta querida tierra,
Pero ahora que he vuelto no comprendo
Cómo pude alejarme de su puerta.
Nada ha cambiado, ni sus casas blancas
Ni sus viejos portones de madera.
Todo está en su lugar; las golondrinas
En la torre más alta de la iglesia;
El caracol en el jardín, y el musgo
En las húmedas manos de las piedras.
No se puede dudar, éste es el reino
Del cielo azul y de las hojas secas
En donde todo y cada cosa tiene
Su singular y plácida leyenda:
Hasta en la propia sombra reconozco
La mirada celeste de mi abuela.
Estos fueron los hechos memorables
Que presenció mi juventud primera,
El correo en la esquina de la plaza
Y la humedad en las murallas viejas.
¡Buena cosa, Dios mío!; nunca sabe
Uno apreciar la dicha verdadera,
Cuando la imaginamos más lejana
Es justamente cuando está más cerca.
Ay de mí, ¡ay de mí!, algo me dice
Que la vida no es más que una quimera;
Una ilusión, un sueño sin orillas,
Una pequeña nube pasajera.
Vamos por partes, no sé bien qué digo,
La emoción se me sube a la cabeza.
Como ya era la hora del silencio
Cuando emprendí mi singular empresa,
Una tras otra, en oleaje mudo,
Al establo volvían las ovejas.
Las saludé personalmente a todas
Y cuando estuve frente a la arboleda
Que alimenta el oído del viajero
Con su inefable música secreta
Recordé el mar y enumeré las hojas
En homenaje a mis hermanas muertas.
Perfectamente bien. Seguí mi viaje
Como quien de la vida nada espera.
Pasé frente a la rueda del molino,
Me detuve delante de una tienda:
El olor del café siempre es el mismo,
Siempre la misma luna en mi cabeza;
Entre el río de entonces y el de ahora
No distingo ninguna diferencia.
Lo reconozco bien, éste es el árbol
Que mi padre plantó frente a la puerta
(Ilustre padre que en sus buenos tiempos
Fuera mejor que una ventana abierta).
Yo me atrevo a afirmar que su conducta
Era un trasunto fiel de la Edad Media
Cuando el perro dormía dulcemente
Bajo el ángulo recto de una estrella.
A estas alturas siento que me envuelve
El delicado olor de las violetas
Que mi amorosa madre cultivaba
Para curar la tos y la tristeza.
Cuánto tiempo ha pasado desde entonces
No podría decirlo con certeza;
Todo está igual, seguramente,
El vino y el ruiseñor encima de la mesa,
Mis hermanos menores a esta hora
Deben venir de vuelta de la escuela:
¡Sólo que el tiempo lo ha borrado todo
Como una blanca tempestad de arena!

Nicanor Parra

Federico García Lorca: Soneto de la dulce queja


Tengo miedo a perder la maravilla 
de tus ojos de estatua y el acento 
que de noche me pone en la mejilla 
la solitaria rosa de tu aliento. 

Tengo pena de ser en esta orilla 
tronco sin ramas; y lo que más siento 
es no tener la flor, pulpa o arcilla, 
para el gusano de mi sufrimiento. 

Si tú eres el tesoro oculto mío, 
si eres mi cruz y mi dolor mojado, 
si soy el perro de tu señorío, 

no me dejes perder lo que he ganado 
y decora las aguas de tu río 
con hojas de mi otoño enajenado.

Federico García Lorca.

Enrique Núñez: Cubagua

Las ciudades se levantan sobre las selvas y éstas cubren después las ciudades, se elevan unas sobre otras constantemente o el mar forma costas novas. Aparecen unas ruinas o unas rocas donde se han tallado algunos signos y nadie supone cuándo fueron escritos. Son historias, historias. Hay cedros y ceibas, cardones, malezas y lianas que encubren el pasado, y hay cielo azul: deseo, lágrimas.


Enrique Núñez, Cubagua. (1930)


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Ode Solar


Tu que tudo unes
Arde dentro de mim até ao fundo.
Enche o meu coração de sol, de vida e de esperança.
Sopra na minha alma o teu fogo mais perfeito
Deus, montanha, rapariga, roupa estendida ao sol
que os meus olhos vejam a tua perfeição em toda a parte
que o meu coração se encha de ti.



Como um pássaro
Uma boca
Um incêndio
o amor vencerá sobre todas as coisas.



Nas têmporas da égua que corre
na pedra que se parte no sul
no coração do ouriço que bate rente ao chão
no ouro, na prata, na cerâmica sigilata
na semente da ideia mais pura
no fim de cada canção
A palavra liberdade a arder
no coração de tudo aquilo que cai
como uma coisa que se sopra para nascer
em muitos sítios diferentes ao mesmo tempo
uma fotografia velha, o fim de uma tarde de verão
Uma ideia de esperança, um dente de leão
Tudo isso com início e com fim
material, pequeno, irredutível, sem nome e sem posse,
com a sua própria contradição, o seu caminho plural,
Tudo isso eu amo até ao fundo:
Pegadas quentes de duas lobas sobre o gelo
nomes de dois amantes numa ponte;
Respiração quente de um recém-nascido que dorme
Amor que lhe contorna a nuca,
húmidas respirações num carro de Luanda
coração desenhado no cimento,
Cadeado - símbolo de quê?
humanidade em marcha, eternidade solar
nuclear, nascente, segura,
Como uma âncora.
Tudo isso eu amo profundamente até ao fundo:
Conto sem conto, conto com conto, canção
e o alfabeto, e os números e as estações, e as cores e as formas,
Arde dentro de mim como o nascimento de uma árvore
Que agora mesmo enterra as suas raízes até ao fundo
Solar potência de cada um.
Solar nascimento e mudança de cada um.

Agora mesmo um pássaro gordo pousa em frente à porta,
e acredito na humanidade até arrebentar.


Uma menina atravessa os campos de trigo.
As espigas estremecem com o vento quente do sul.
O silêncio antigo do sol entre cada pulsação do coração.
conta um segredo de luz e espuma – ouve bem -
um ninho que guarda ovos minúsculos -
a rebentar por todos os lados,
as correntes fundas e quentes de um rio que se adentra no mar.


Tu que és montanha
e cimento e conjunto de limões,
enche-nos da tua vida pura e continua,
do teu riso, do rompimento
que cada semente traz consigo
da ressurreição de cada passo


Tu que tudo unes
Arde dentro de nós até ao fundo
Como uma coisa que se sopra para nascer
Como uma coisa com início e com fim:
Pequena. Material. Honesta.
Irredutível.
Como uma coisa que não para de nascer...


Nuno Brito.

O Desenhador de Sóis. II. (Nascente)


A vida trabalha impessoal, quente, honesta. A mais honesta. O Coração da Baleia, o Coração do Cavalo, o elétrico Coração do Pirilampo. A Vida trabalha com os seus fogos. Podemos falar com deus enquanto a vida trabalha com os seus fogos. É uma explosão de luz dentro de cada célula (Nascente). Mãos, braços, dedos, cabelos, pontas acesas de vida. Como o baixar a cabeça de um remador, vamos juntos em direção à nascente de tudo. Remamos com sinceridade. O céu está claro, branco, brilhante. E dizemos com sinceridade:
 A minha cara é de todo o mundo, a luz que bate na minha cara é a mesma que bate em todos, e esta luz pulsa, segura, viva como uma canção muito antiga; o poderoso silêncio do sol dobrado no meu coração (Nascente). O potente silêncio do sol a arder no meu coração. Inteiro, Invencível, Eterno. Somos tantos homens e mulheres com as suas mãos quentes. O fogo na linha da vida como uma certeza antiga. Desenhamos uma luz que é também caminho e vamos juntos em direção à nascente de tudo. Se a vida é um jogo, ela só nos permite a vitória, e essa vontade de rir, tão profunda e quente, de todas as coisas. Ela é colossal e gigante e bela. Agora mesmo um louva-a-deus na nossa janela. Perguntamo-nos se ele vai mudar de pele, se ele criou aí o seu ninho, se vai ter um filho? É verde e quando vira a cabeça para nós parece um extraterrestre. É belo. Leva três dias ali. Penso na fonte de tudo, penso com amor na fonte de tudo e bendigo o bem deste caminho. Comunico um batimento antigo (uma chama tão perfeita), um estremecimento de prazer. A mensagem que quero deixar é tão pura que todas as células se riam, todas elas vibram, todas elas cruzam os seus fogos. A nascente jorra, múltipla, sincera, infinita. Viva, a nascente flui o seu prazer puro, a sua vibração eterna. Penso nessa fonte, no doce nascimento do sol. No louva-a-deus que nos olha com uma sabedoria mineral, uma sabedoria de árvore que pode mover os seus ramos, devagar, extremamente devagar. As suas patas compridas, o seu lento virar da cabeça perfeito. De agora em diante movemo-nos rápidos, em ondas, e vemos tudo mergulhado em sonho. A nossa vida inteira é uma onda (assim nos deve ver o louva-a-deus) assim nos deve ver um girassol com o seu levantar a cabeça paciente de remador antigo. De agora em diante seremos felizes como o centro de um girassol, a sua seiva quente, doseada, prolongada e vital; como o leite gordo de baleia. De agora em diante a nossa sabedoria (de louva-a-deus) será esse virar a cabeça seguro e humilde como o centro de um cacto. De agora em diante o nosso corpo virará as suas patas para o céu e os nossos olhos espelharão algo grande, colossal e perfeito como estas montanhas ao fim da tarde.


Nuno Brito .

O Desenhador de Sóis V.


Uma abelha traz um girassol (futuro),
uma vida traz outra vida
e um marinheiro são sempre dois marinheiros.
Talvez toda a poesia queira só dizer como tudo é outra coisa,
e todas as sementes
tragam só o seu regresso ao sol
talvez usemos um só símbolo
para dizer como tudo está vivo,
Talvez os poemas sobre barcos sejam, de longe, os mais honestos.


Nuno Brito.