sábado, 20 de setembro de 2014

Bruno Béu


enquanto sonhas, as coisas tremem
como se as desfocassem
lágrimas já preparadas para serem
do sonho o teu real rosto.

acordas, porque as coisas tremem muito
e são quase uma só com muitos lados: o corpo
treme agora bem real com elas. as lágrimas

afinal escorrem. nos jornais
amanhã vão escrever seis graus
na escala do richter
que as mediu não sei bem como.

Bruno Béu, partilhado a partir de There´s Only one Alice.

Beatriz Hierro Lopes


(…) Pedem-me uma biografia e digo-o dentro de mim: a minha biografia é o meu nome, tudo o resto são pausas, virgulações que informam a banalidade congénita de ter nascido. A simplificação absoluta de uma história mora na certeza de pai e mãe, avós e demais família. (…)


Beatriz Hierro Lopes, É quase noite, Lisboa, Averno, 2013, p. 20.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Eugénio de Andrade. Mar de Setembro



Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
Fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
doceis, leves, só
alma e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam;
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto,
puríssimo, doirado.

Eugénio de Andrade, Coração do Dia – Mar de Setembro, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013.

sábado, 13 de setembro de 2014


Luis Maffei. Orientação dos Gatos


a Beth e Bethina, gatas

para medir a felicidade de um gato
cortázar
temo
não diz nada. basta
se eu digo
uma aterrissagem,
plano em contrário sabor
ao colapso: é
um gato
o poema nunca
que ensina o caimento,
simétrica mostra ao
saber da planagem, ato
impoluto e inumano
de cair de



Luís Maffei, partilhado a partir de Revista Literária Sítio.

Luis Maffei. Contrariedades



Cruel, frenético e exigente é o
tempo,
poeta,
tu não.
Tu és morto e ele
a mim
arma de armas e bagagens e
instrumentos de fuga rumo
(a morte é depois,
é outra coisa)
ao que dura
pouco
dura
menos que o tempo
próprio fosse
justo fosse e ainda à mão
de um dedo à mão
da parte nova que
do tempo
escorre para o mais longe do
tempo tempo fosse.

E a vocação, poeta,
se a morte é depois, se
é outra coisa
é um tempo vivo e tão vivo
que
a mim
sorve de escombros
de coisa nova
beira uma finda
antes da
finda antes do
tempo antes do
abismo.


Luis Maffei, partilhado a partir de Revista Literária Sítio.

António Botto. Ciúme



I

Venham ver a maravilha
do seu corpo juvenil.

O sol encharca-o de luz,
e o mar de rojo tem rasgos
de luxúria provocante.

Avanço, procuro olhá-lo
mais de perto… A luz é tanta
que tudo em volta cintila
num clarão largo e difuso…

Anda nu - saltando e rindo,
e sobre a areia da praia
parece um astro fugindo.
Procuro olhá-lo; - e os seus olhos,
amedrontados, recusam
fixar os meus… - Entristeço…
Mas nesse olhar fugidio –
pude ver a eternidade
do beijo que eu não mereço.


IX

Não. Continua o teu caminho.
-Abraça e beija aqueles que tu quiseres
porque fico na certeza
de que fui eu quem deu alma
a todos os movimentos
 da tua sensualidade!

Carícias intermináveis,
comprou-as o meu dinheiro!
Inútil!... Guarda os teus braços,
Guarda-os, sim, para o primeiro!...

Deste-me tudo o que eu quis!

Fiz do teu corpo bandeira
na guerra do meu anseio!

Mas sinto que me apeteces
por entre náuseas profundas.

Cheio de lama e de sonho,
ando a ver se encontro a origem
das nossas vidas imundas.
                                                         

António Botto, in Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, (Seleção, prefácio e notas de Natália Correia), Lisboa, Antígona / Frenesi, 2008, (5ª edição), p. 417.