terça-feira, 22 de julho de 2014

Carlos Bessa. Olhos de morder lembrar e partir


A concorrência, ser melhor do que o outro
Que é senão amá-lo?
Como se hierarquiza raio-x a traição
A mentira?

As frases com que me digo
São para me dizer ou para te irritar?
Onde coomeça esta música esta vontade
Esta incapacidade de te ter e querer a mim obrigar?
 
Carlos Bessa, Olhos de morder, lembrar e partir, Lisboa, Black Sun, 2000.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Nuno Moura. O Livro dos Livros

  
1.
Uma mulher vai na parte mais bonita da rua.


O seu gelado passa de boca em boca no passeio contrário
mas pouco dos galos a combusta.


Apetece-lhe chegar a casa e pôr a cabeça sobre os pêlos
do peito.


Ficava-lhe bem uma barba postiça lá para baixo
mas há muito tempo que não o faz.


Um cigarro antes de ir dormir.
Um beijo para acordar o charlie brown.
A camisola da ginástica perto do saco perdido de frio.


2.
Foi trágico.


O homem respondeu ao assobio para cão.


3.
Nos quartos por cima do alterne viking choque dance bar
uma mulher veste uma roupa própria para sair.


Não diz nada ao príncipe nem às colegas.


4.
Na cervejaria número noventa à esquina
em fora de horas
o feiticeiro não resiste em levar um chocolate para os
seus miúdos.


5.
A c-mais-s tinha instalações com pessoas dentro de
cadeiras
em salas abrancadas.


Como ele esperava uma aparição, tinha os olhos
vermelhos.


Acendeu o cachimbo. Atrasada como sempre ela viria
para a aula
das oito e meia.


Quando ele for o reitor, ou o governador, vai dizer que
quer governar muitos anos
e a rapariga vai dar-lhe um grande beijo entre as pernas.


Para ela é abraçar o poder.
Para ele é o cheiro do cloro que ela traz depois dos
treinos.


6.
Apanhou um táxi e disse, – um desastre quanto é?


Nuno Moura, O Livro dos Livros. Lisboa, Mariposa Azual, 2000.

sábado, 19 de julho de 2014

João Bosco da Silva


Bom Dia
 ao Carlos, César, João, Sebastião, Paulo e Rui

Com o peso de todas as preocupação nas alças de uma mochila,
A manhã que começa com o cheiro a café, torradas e leite.
Bom dia e sente-se de verdade, porque se sente a frescura de mais
um dia,
Naquele momento nunca poderia ser mau dia,
Ainda se espera algo de novo, é certo ter-se algo de novo no dia,
Quando as preocupações todas dentro de uma mochila.
A manhã abraça-nos, fresca, cheia de portas abertas, de sonhos,
Como se fossemos os especiais, a esperança de um mundo que não
cresce.
Dos paralelos até à rua principal, passando pelos cafés que
acordam,
Com as vassouras a dar os primeiros retoques,
Como o pente e dedos molhados a dar os últimos,
A deitar aqueles cabelos que insistem,
Porque há sempre quem insista, quem queira fazer a diferença,
Quem vá contra, até que vem uma mão cheia de gel, marcas do tempo.
Com pedaços de felicidade à espera no átrio,
Para mais bons dias sinceros, de coração cheio e inteiro,
Com o cheiro branco da geada a fazer doer as orelhas e o nariz,
E eram todas as dores que tínhamos.
Pedaços de nós que ainda não reconhecemos,
Mas um dia, esta parte de mim é dele,
Aquela dele é minha, até que o pó vem e cobre tudo,
A tinta passa e faz-nos esquecer o que fomos, o que somos, por
baixo,
O que éramos quando a mochila era o único peso a fazer peso na
vida.
Entra-se pela porta com menos vontade do que com a que se sai,
Apesar de se saber que se vai sair a ser mais por dentro,
Aos poucos mais pesados, com um peso que não nas alças,
No pescoço, irradiando para os ombros, para as costas, para
dentro,
Onde se começa a duvidar que more lá uma alma.
Aos poucos e com o tempo a inocência que torna tudo leve,
A esvanecer-se, a ser apagada pela luz que nos apontam aos olhos,
Como num interrogatório, a ver se somos gente.
Que venha o toque e uma pausa para falar à vontade,
Para completar o que somos com os que somos também,
Aqueles primeiros, os pedaços de felicidade com quem partilhamos o
mundo,
O que se espera dele, sem saber que pouco nos espera.
Bom dia, e ainda temos muito pela frente,
Um dia inteiro de cada vez, até chegarmos lá,
E uma vez lá... onde é lá?
Aulas constantes onde é tão difícil acompanhar as vozes,
Testes todos os dias, tão difíceis, tão inúteis,
Para poder ter isto, que nunca quis quando o Bom dia sincero,
Isto que nunca sonhei quando acordei uma manhã para enfrentar mais
um dia,
Tão igual e tão diferente aos dias anteriores,
Com o cheiro a café, torradas e leite,
Em baixo na cozinha à espera, com um Bom dia sincero à espera,
A manhã depois da porta à espera, com um abraço de Bom dia,
Os que me são no átrio à espera, com um Bom dia em coro,
A sala à espera, com um Bom dia sábio,
O intervalo à espera e nós à espera dele, é um Bom dia.
Intervalos que se tornam cada vez mais curtos,
Cada vez mais raros, de semana a semana,
De mês a mês, de meio em meio ano, de anos a anos,
Até que só um nome, uma doce recordação, um pedaço de nós,
Cada vez mais longe, cada vez menos visível, debaixo de tanto
lixo,
A pesar no que somos, a esmagar o que fomos,
O que fomos capaz de um Bom dia sincero, com esperança,
Com as mãos cheias de nada, esperando com elas agarrar a vida,
Conquistar o mundo, que afinal, não vale a pena conquistar


João Bosco da Silva, in Bater palmas e sete palmos de terra nos olhos.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Nuno Moura.


Não há nada mais lindo
do que este clube de ar puto
com o leão jonas debaixo da palmeira
cabidiando o braço no meu muro esquerdo
o que eu fazia com ele
dar-lhe a minha lapela com águia de prata.

o leão jonas disse-me querem apanhar a minha sacana
mas eu dei-lhe as chaves do apartamento
em troca de protecção.

orientar a nova tendência das dúvidas existenciais
tem os seus proveitos.

se calhar no próximo mês estaremos na dúvida
quanto à nossa bondade.

e depois se nos poderemos deitar sozinhos
só com nós próprios ao lado.


Nuno Moura, Nova Asmática Portuguesa, Lisboa, Mariposa Azual, 2013. (segunda edição). p. 48.

Nuno Moura.


“envelheço e não aconteço
bato punhetas frente ao espelho
desejando quem não conheço
marujos, tropas, desportistas

penso e não existo
juncos silvestres um bom filme
meu deus abre as pernas”

(grafito que se encontra no túnel entre o c.c.b. e o padrão dos descobrimentos, não assinado)*
*(no início - ? – de 1997, este grafito foi submerso por outros de muitas cores e menos palavras)


Nuno Moura, Nova Asmática Portuguesa, Lisboa, Mariposa Azual, 2013 (Segunda Edição). 

Charles Baudelaire. O Albatroz


Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem
Na caça do albatroz, ave enorme e voraz,
Que segue pelo azul a embarcação em viagem,
Num vôo triunfal, numa carreira audaz.

Mas quando o albatroz se vê preso, estendido
Nas tábuas do convés, — pobre rei destronado!
Que pena que ele faz, humilde e constrangido,
As asas imperiais caídas para o lado!

Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo!
Era grande e gentil, ei-lo o grotesco verme!...
Chega-lhe um ao bico o fogo do cachimbo,
Mutila um outro a pata ao voador inerme.

O Poeta é semelhante a essa águia marinha
Que desdenha da seta, e afronta os vendavais;
Exilado na terra, entre a plebe escarninha,
Não o deixam andar as asas colossais!

Charles Baudelaire, As Flores do Mal.

Joaquim Cardoso Dias. Quarto Escuro


Estou demasiado perto
das coisas que não existem.
Devoro os meus animais
 e dou ar ao mundo,
com um dos seus cantores fascinados.
Sobre o que dissemos ontem, os dentes mais felizes.
E misteriosamente os braços são lindos.
Imaginam o que comiam se eu fosse
uma criança perfeita,
e têm pelos repetidamente fáceis de pensar.
Mas os outros já não existem na morte.
Tento acender outras imagens devoradas pelo tempo.
e sei que é por tua causa
que esta noite existe e se repete
a vida inteira.


Joaquim Cardoso Dias, in Meditações sobre o Fim: os últimos poemas, Lisboa, Hariemuj, 2012. (p. 116).