sábado, 3 de setembro de 2011

Miguel-Manso

Em Évora, um terraço


quando o nível das águas subir

(não se sabe ainda quantos metros)

e se apagarem certos lugares: a sombra

do limoeiro da infância


a praia onde todo o Verão cabia


e terminar submerso tudo o que foi raso e sacro

então que pelo menos permaneça intacto

aquele terraço em Évora


Miguel Manso - retirado de:
http://asfolhasardem.wordpress.com/

Sara F. Costa

Contemplação


sento-me na margem da tua infância
e recupero o gosto pelo esquecimento.
as minhas mãos traçam o momento
em que o teu corpo aberto colide com o mar.
imagino o oceano em que te deitas
e a forma como
a tua boca de areia se alarga
até à Praia da Vieira.
imagino os rascunhos de memória
que as horas vão largando
ao longo do caminho.
sinto-te um prolongamento do meu pensamento,
pensamento de água
volátil como a noite que te abriga,
fragmentário como o cheiro do teu nome de flor.

a luz apagou todos os vestígios da terra que nos escorre dos olhos,
deixou-nos entregues à substância húmida do abandono
aos caminhos modernos das várias formas de embriaguez letal.
embriaguez no centro de todas as coisas visíveis,
queimadas ao longo dos extensos pensamentos matinais.

escrever revela-se tão volátil como esfaquear-te,
se é que me entendes.

vivemos na mesma esfera de fogo que acompanha o balanço dos
[enforcados.
o gelo aproxima-se da boca
enquanto despertamos de todo o cansaço
e contemplamos as insónias enferrujadas
por dentro das imagens.
esquecemo-nos de vigiar a natureza quando a realidade tem problemas
ao nível do hardware.

observa, o ar gera filhos nos poros do tempo magro,
a alienação cria escamas firmes pela pele.

por dentro de todas as palavras abstractas
encontramos água
e o peito da terra respira um medo fragmentado.
os gestos nervosos das ruas anestesiam-nos diariamente.

Sara F. Costa: in "Criatura número 1" - Fevereiro 2008.

Ana Salomé

Ode Rimbaud


eu sou absolutamente moderna, Rimbaud.
sei que nunca pensaste que uma rapariga de Portugal
se tornasse absolutamente moderna.
o caso é que nunca deitei o amor pela janela
mas a janela deitou-se pelo amor dentro.
não toco piano, não falo francês, nem faço fru-fru.
sou absolutamente moderna, Rimbaud.
tenho telemóvel, tenho blog, tenho carro
e até uma paixão que já não é platónica
agora para se ser absolutamente moderno
diz-se virtual, Rimbaud.
perdoa-me
dou-te a minha perna
um prato com bolinhos de canela
para te lembrares do tempo dela.
perdoa-me o sarcasmo, Rimbaud
o fatalismo azedo de rapariga absolutamente moderna
constructo humano, já não ser.
perdoa as minhas pernas a engordar de noite para noite
o fumo da chaminé comum do prédio
a minha imensa falta de árvores
a minha necessidade que devora um poema para o deitar fora.
perdoa-me não ter entendido uma única coisa que disseste
mesmo na tradução do Cesariny que é livre e bela
como uma rosa francesa desgrenhada em solo português.
perdoa-me escrever telegraficamente
ter deixado de respirar para todo o sempre
e continuar a pintar os lábios de vermelho
como se isso fosse possível num deserto sem beijos.
perdoa-me não ter consigo manter a tua palavra
perdoa-me ter falhado e ser erro.
p.s. - se quiseres regressar a terra
como o Cristo da literatura do não
tomas café comigo?


Ana Salomé: "Odes" - Canto Escuro 2008.

Ana Madureira




Ana Madureira: "Noveloteca".

Luís Filipe Parrado

Teoria da Narrativa Familiar


Naquele tempo o meu pai trabalhava

por turnos

como herói socialista

no sector siderúrgico

e dormia com a minhamãe.

A minha mãe esfregava

a sarja encardida:

a água ficava da cor da ferrugem.

Havia, por perto, um cão

esgalgado,

sempre a rondar.

Depois a minha irmã nasceu

e eu fui obrigado

a rever a minha mitologia privada do caos.

Entre uma coisa e outra

aprendia mentir.

E isso, não sei se sabem, mudou tudo.


Luís Filipe Parrado, criatura n.º 3, p. 119, Abril de 2009.

José Ferreira

A chegada dos pescadores

o levantar tão descalço dos pés
na janela sobre as águas do mediterrâneo;
um mar de terras, de continentes, de algumas ilhas -

a madeira embebida liberta olhos de tinta
e guarda a memória das redes nos braços maduros
no olhar escuro das camisas largas, nas calças de gola alta
junto à cabeça dos pés, perto dos dedos de sal -

Júlia observa calma essas fadigas longas, esses rostos gastos
essas mãos grossas e morenas que se agarram ao cais.
Júlia observa calma o prateado dos peixes distraídos
inalando à distância um odor de escamas
característico e reflectido pelos raios de sol-

enquanto no fogão, o vapor de uma sopa grande
e na mesa tosca, as malgas de esmalte quebrado
os copos de vinho e os nacos de uma broa
aos bocados -

o António Maria e o Julinho estão de volta
está na hora da fome, a hora do descanso
a hora igual de todos os dias da semana
salvo o domingo
quando vestem um fato de riscas coçado
sapatos largos como barcos
e chapéus de abas negras até à entrada da igreja
antes da água benta -

a Júlia tem marcas nos cotovelos de tantas horas paradas
e tremem-lhe sempre os seios enquanto não chegam a casa -

ao domingo veste um vestido de chita e pinta os lábios
e quando chega a noite António toca-lhe devagarinho
e ao longe as estrelas -

José Ferreira 26 Agosto 2011

Carlos Vinagre

hortênsia


ante os peixes
um oceano de algas

a varanda transplanta o cosmos
na vaporização

viver o antes pelo ziguezague
nos maxilares do sonho
a vigília

o caldeirão mágico

há também a libélula e o fosso
e os feixes lilases na boca
e o caminho

-enforca-se o tempo -

e a antecâmara
e a noite inibitória das escamas
e o cobre da alma?

ante-a-noite o louva-a-deus
e o granizo e a virgindade do mundo
e o púbere campo da amnésia

- olha-se o fígado-

o vislumbre das sereias
a roda nupcial dos precipícios
os leilões de carne pela superfície do ininterrupto
bolor do sangue

- cai uma tempestade pelo nenhures -

a boneca invisível goteja a boca
e estica a língua ante o crepúsculo das mãos
e o abrir da água pelo esperma

não esperemos o feedback das cidades
basta a omofagia da ranhura
e um pouco de infância pelas colinas

fechemos os olhos e aguardemos o interruptor da luz

- as algas da tribo