segunda-feira, 16 de março de 2015

Nuno Moura: Canto Nono

Nuno Moura
 Canto Nono
Lisboa, Douda Correria / 2013


Canto Nono é a mais recente publicação de Nuno Moura, apresenta-se como uma unidade poética dividida em 9 partes que se liga intertextualmente ao episódio camoniano. Tal como a Ilha dos Amores, Canto Nono inaugura um espaço de utopia amorosa, um lugar de posse e encontro ideal que se funda na idealização de um tempo épico em que “ninguém abusava da sua posição” (5) e “a presença de um filho era a pose que o amor mais admirava” (6); é, por isso mesmo, o pretérito imperfeito o tempo nuclear desta unidade poética. Mas Canto Nono fala essencialmente do nosso tempo, dos desequilíbrios e excessos do nosso tempo, do presente enquanto transbordo, do presente em que tudo passa e do presente tal como a primeira geração modernista o viu, enquanto tempo limite polarizado pela euforia e disforia, pelo desmedido e colossal. Nesse sentido o sujeito poético de Canto Nono é itinerante, deambulatório, multiplica-se por diferentes espaços, fala através do cruzamento de diferentes vozes, tempos e linguagens, aproxima-se, ora do olhar urbano de Cesário Verde, ora da apurada experimentação plástica da língua em Ângelo de Lima e encontra no Modernismo Português uma zona de diálogo permanente com o nosso tempo. Por isso mesmo, o tempo incerto e indefinido de um passado vago serve a própria mitificação do presente que é construída neste poema. O presente é estranhado nos seus milagres quotidianos, captado no que ele tem de insólito mas também de intemporal, de não-lugar e de utópico, por um olhar poético transfigurado a partir de um tratamento do humor bastante específico e singular, facto a que nos foi habituando nos seus livros anteriores. Este tratamento do humor e esta visão de mitificação do presente é o que mais afasta Nuno Moura dos restantes autores presentes na Antologia Os Poetas sem qualidades e o que mais singulariza a sua criação poética.
A velocidade do fluxo de imagens de Canto Nono é intensificada pela multiplicidade de referências, pelo equilíbrio entre a fluidez e a fragmentação, por um lado a fluência do registo narrativo e a quase inexistência da pontuação em detrimento do polissíndeto: “havia itinerância antes de haver autocarros / e os dragões vermelhos cerimoniavam aulas fúnebres / ainda a morte não tinha conhecimento de prosa / e era comum a paixão súbita por cadelas / e explicava-se a velocidade aos filhos / sem loção solar / e as correntes de ar cheiravam à planta do café / e já admirávamos as estrelas / sentados no colo do João dos Santos” (6), e por outro, a fragmentação imposta pela quebra da oração, pelo anacoluto, pela justaposição de diferentes tempos verbais “e acionista era um local difícil de visitar / e expludo, não olhes para mim / e Não mintas era abrir por aqui / e Tens os meus livros todos era hã / e Encanta-me era Quando acabares de olhar devolve-me” (12); Esta sugestão de fragmentação potencia, paradoxalmente, a fluidez e o fluxo das imagens ao permitir uma multiplicidade de vozes e referências que se interrompem, sobrepõem e cruzam. Esta rede de sobreposição de discursos serve também a simulação da oralidade através das suas quebras, do recurso à linguagem popular, aos provérbios e aos trocadilhos: “a mim pranto se me dá […] ah meu rimão” (7), “Dama de Copos” (17). A criação de Nuno Moura manifesta-se em Canto Nono como uma Poética de múltiplos recursos, onde imperam as figuras fónicas, a valorização do tecido rítmico do texto, conseguido singularmente através da assonância e da aliteração, da anáfora, do recurso à paronímia e aos jogos de palavras, do emprego de neologismos e sugestões onomatopaicas, da alternância entre o verso longo e o verso curto e da coexistência do português e do inglês que complementa as inúmeras referências: “e trazer livros à random / para ler poemas avulso” (17), “ninguém queria saber da gráfica Private Space / de Barcelona, nem do Olin Regular / ou do imuro Recycle, Symbol Mat / Cotton Wove” (16).
Em Canto Nono o recurso ao humor alia-se à ironia para denunciar o que de artificialidade pode haver no literário “somos o cânone do signo do texto / vendeu bem / eu não tenho tento na tristeza / vendeu muito bem” (20), “desperspicácia era criação de pássaros” (17), denúncia humorística de um discurso erudito e humor omnipresente sobre o qual as múltiplas imagens vão sendo criadas, muitas vezes seguindo um tipo de construção surrealista “ainda se imaginava o que estaria a arder pelo sorriso das flores / e tudo o que se comia era através do nó da colher do sobreiro / e sabem o que é uma lágrima no metro de Lisboa? / pois vos digo que é uma meloneia” (8). Do diálogo entre dois tempos culmina uma promessa de futuro, apresentada nos últimos versos de Canto Nono “e o que ficava sempre bem era / vou fazer-te uma coisa linda / adicionar música / adicionar intersecções / adicionar caules / adicionar feridas / adicionar contrapesos / adicionar ir / vamos” (23). A passagem do infinitivo para o imperativo que culmina no verso final “vamos” serve o cruzamento dinâmico de tempos e vozes que confluem à subversão de um discurso que se pretende plural. Subversão também em alguns elementos extratextuais lançados nesta edição, como a ausência do número de página e a colocação da nota prévia no final do livro. O diálogo intertextual que este livro nos oferece é extenso, são vários os poetas invocados, Miguel Manso, Miguel Cardoso, Raquel Nobre Guerra ou Rui Costa são alguns dos exemplos aludidos, poetas representativos da novíssima poesia portuguesa que, tal como Camões, viveram numa época tocada por milagres em que a utopia se poderia sentir mais nitidamente. Essa poderia ser uma das mensagens deste Canto Nono enquanto lugar de celebração de um lugar impossível, que se pode no entanto sentir no batimento do presente.



Nuno Brito



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