domingo, 17 de agosto de 2014

Calaveritas, riso e morte na Poesia Popular Mexicana

  
As Calaveritas são um género de literatura popular especificamente mexicana. Aproximam-se na sua forma e no seu tempo de criação específico e perene às quadras populares portuguesas, são também elas poemas em quadra, uma ou várias (embora haja exceções) e tal como as quadras populares fazem parte de um conjunto amplo de celebrações de um dia específico do ano, neste caso, o Dia de Mortos celebrado nos dias 1 e 2 de Novembro, o dia 1, dedicado às crianças mortas e o dia 2 aos adultos.
Também como as quadras populares, as Calaveritas invocam uma personagem, mas neste caso ao contrário das figuras católicas, (Santo António, São João, São Pedro), a personagem central da invocação é a própria personificação da morte, sem qualquer alusão a uma marca religiosa católica. Essa marca existe nas celebrações uma vez que o Dia de Mortos coincide com o Dia de Finados ou Dia de Todos os Santos do calendário religioso de praticamente todos os países onde a religião cristã é predominante, no entanto nesta festa de dimensão nacional o dia é apenas uma das poucas apropriações que a igreja católica assumiu de uma festividade ancestral. O Dia de Mortos é uma celebração de raiz pré-hispânica comemorada há mais de 3.000 anos por praticamente todas as civilizações mesoamericanas. Durante a civilização asteca as festividades tinham a duração de um mês completo, o nono mês do calendário solar asteca e tratava-se de um festival de grandes dimensões que homenageava e celebrava a morte, não como um fim mas como uma passagem e início de um novo ciclo.
Na atualidade, o Dia de Mortos é uma das maiores festas mexicanas, a tradição popular acredita que na noite de 1 para 2 de Novembro os mortos vêm visitar as famílias que deixaram, por isso mesmo as casas são decoradas com papeis coloridos, recortados em formas alegóricas específicas e é montado um pequeno altar de oferenda aos mortos familiares, mesas decoradas com flores e com fotografias, com as comidas e bebidas preferidas dos familiares que já faleceram, cigarros, por exemplo no caso de ele ter sido fumador, charutos, uma garrafa de tequila ou cerveja e objetos que simbolizam afinidades que eles tiveram durante a vida. Da oferenda faz também sempre parte o pão de mortos, doce típico desta festa, um pão redondo que em cima tem a forma de ossos que se cruzam no centro. Na entrada das casas ou na mesa da Oferenda há também pétalas de flores de diferentes cores dispostas de forma a criarem desenhos, também as campas dos cemitérios são cobertas com estes desenhos feitos com pétalas. As Oferendas são também feitas nos lugares de trabalho, nas empresas, nas escolas e universidades.
As Calaveritas enquadram-se nesta celebração como uma manifestação cultural tipicamente popular, mas que ao contrário das Oferendas, não são dedicadas aos mortos mas sim aos vivos, amigos ou familiares a quem aquele que escreve dedica satirizando algumas das suas características descrevendo o momento da morte da pessoa a quem é dedicada. A morte aparece assim no poema sob as personagens de: La Catrina, La Flaca, La Tilica, La Calaca ou la Parca. Os termos Flaca e Tilica (magra, esquelética) fazem alusão ao esqueleto e de forma eufemística à morte, tal como Calaca (caveira).
A Catrina é a personagem feminina central do imaginário popular mexicano ligada à morte que ela mesmo personifica, é representada na forma de um esqueleto com um chapéu e ficou popularizada nas gravuras do pintor José Guadalupe Posada. A Calaverita é, assim, um género poético que, redigida em forma de epitáfio, simula o momento da morte. Vejamos este exemplo:

La catrina llegó a la escuela
y a Laura tomó de la oreja
le dijo te llevo por ser gritona
aunque prometas y prometas
ay huesuda no me lleves
te prometo no gritar
te conozco Laura loca
que lo vas a intentar
la huesuda no creyó
y a Laura se llevó.
Pobre Laura ya murió
y a su amor abandonó
ay Gricell como le llora
a su amiguita adorada
y le dice ay amiguis mía
por qué fuiste tan mal portada…

Como género poético, as Calaveritas seguem um esquema narrativo e salientam ou aumentam de forma jocosa as características físicas ou psicológicas da pessoa a quem é dedicada, neste caso, a morte veio buscar a Laura porque ela gritava muito. Em jeito de caricatura, os traços são exagerados, salientados de forma hiperbólica e humorística e nem sempre é a morte que ganha porque também ela é satirizada, por exemplo, a morte veio buscar A mas A era tão feia que a morte fugiu, ou a morte veio por B mas B era tão gordo que a morte não o conseguiu levar, ou ainda A Catrina veio buscar C mas ele era tão teimoso que ela desistiu. A morte humanizada em todas as suas características pode não conseguir realizar o seu objetivo. Assim na Calaverita pode não ficar fixado o momento da morte, mas sempre um encontro com a morte, por exemplo na seguinte quadra: Tenía la muerte en su lista / a Edith como pendiente / más no la reconoció, /pues ahora no tiene dientes.
A Morte pode não reconhecer, pode desistir do seu objetivo ou ainda juntar-se àquele que vinha buscar, por exemplo, Estava D a comer pastéis quando veio a morte que tinha muita fome e comeu com ele.
O efeito humorístico da Calaverita não passa só pela sátira à pessoa a quem é dedicada, mas também pela sátira à própria morte que é tornada risível, ridícula (mais tolerável) porque dela se ri. Servem-se assim de um humor negro simples e direto para expressar amizade ou amor, são uma manifestação de afeto através de um intermediário improvável, a morte. encontram o riso na morte, olhando-a de frente.
Na imprensa mexicana do século XIX as Calaveritas apareciam como formas de crítica política, eram quase sempre acompanhadas de gravuras, como neste caso:


 Nas escolas primárias, nos dias anteriores ao Dia de Mortos, os professores pedem aos alunos que façam Calaveritas para os colegas e tal como com as quadras populares portuguesas há concursos de Calaveritas nas escolas, nas empresas e em outras instituições. Elas são o reflexo literário de uma atitude cultural; uma aprovação de vida mesmo na morte.

Nuno Brito.

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