Lembro-me das ametistas no fundo do mar; E da procissão
das velas, nas ruas estreitas de Arouca com os meninos vestidos de anjinhos:
anjinhos, futuros heroinómanos ou destinados a morrer cedo demais, a descerem
as ruas estreitas de Arouca Numa
procissão roxa de anjinhos subaquáticos: mancha benigna a atravessar o
Atlântico onde outros anjos de asas tortas os esperam enquanto fervem as
linhas:
LINHAS
QUE FERVEM*
No fundo do mar, onde chovem as ametistas e pedras roxas.
Os seus dentinhos de leite vão cair e os
seus dentes normais vão cair e vão cair muitas outras coisas: A procissão a
entrar no mosteiro subaquático onde flutua uma santa embalsamada. As asas
tortas e as asas direitas que as mães e as avós vão endireitando atrás, e da janela
as pessoas olham e cumprimentam e todos olham para cima: e isso é natural como
algumas conchas adocicadas de certas ilhas do Atlântico Sul que buzinam como
os navios que chegam, enganando os que esperam.
(Parte que Julian Artl me aconselhou a cortar no conto) Muitas vezes, a um desses anjos é dado um pouco
de cimento misturado na heroína, e as asas do anjo fervem e o cimento em pó
entra nas artérias e bloqueia as artérias finas e as grossas, entorta e faz
cair as asas.
Créme de la Creme, Porto, Planeta Viva, 2011.
Sem comentários:
Enviar um comentário