sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Luis Felício

cada homem é uma fome dentro
do sono a terra erguida

afeito ao som o nome é
o fuso do verão tecendo o calor
à medida que a fome sobe à garganta

o mel a asma dos teus dedos
peito adentro
desde o bosque


há o meu nome o teu e o mundo em redor
ou uma casa que diz como tudo é
um dos nome do mês de maio
e rodeadas de árvores as mãos
alumiando o que resta do sol
nas vidas de quem não é mais que um modo de nomear
o som audível através do gesto
que escuta sempre
o que soçobra dos estilhaços do vento
em torno das casas
há um minério profundo
o meu nome como se eu dissesse
o vinho aberto ao meio
dos joelhos bebemos sempre
o que vem depois de a chuva haver
plantando no fundo das cisternas
o que resta do nome das amêndoas

*
(de olissipo recordo)
recordo as tardes as tágides
declinadas ao longo da orla dos pomares

o mel que faziam os dias no teu rosto

enquanto nos ataúdes a raiz do sangue aguardava
que as noites crescessem verticais face
à extensão do teu nome
por entre as vigas do calor

(posso dizer que depois que)

conheci alguém no centro do mundo

(tenho sempre os mesmos sapatos;
os mesmos que pisaram paris, os mesmos
que pisaram a relva de Auchwitz


tentativa de poema concreto

homero era cego. tinha os
olhos brancos das fontes

dizia-se que com as suas mãos
movimentava as casas
e as paisagens de lugar

só de as olhar

homero via. as metáforas.

dizia-se que com tesouras
dentro da noite
semeava os olhos dentro da pedra
e escrevia depois o odor do estilhaço

dizia-se que homero
era cego
e que escrevia as palavras como
pálpebras sobre o lume. que

homero via sempre

o primeiro nascimento dos olhos
a partir de uma pedra de cal

homero é cego e vê.

a inércia como máximo movimento

e as metáforas todas estilhaçadas
numa parede branca

homero vê.

a projecção de um eco
diante de uma lâmina

a sucinta extinção da figura
arrasada pelo gesto de consumar
a sombra de uma sombra

homero é cego. vê.

as imagens desde dentro
da sua própria ausência

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não há paisagem que seja
imóvel

o poema
como os incêndios
é um corpo sempre
em movimento


*
são fundos os rostos da memória,
enquanto
na faina do vento, os olhos amam
o cerco de uns braços em torno do peito
desde da raiz da melodia
até à rubra flor do rosto

sempre que alguém canta
nos ledos verdes campos,
a canção das searas em flor,
um alaúde estremece
na quente solidão das casas

e diz-se depois que
é um luto a mão que assina a carne melódica
na pauta do feno colhido por braços

e diz-se que
é doce a canção,
enquanto
um peito estremece numa véspera de amor

canta a voz:
é doce a viagem,
enquanto
o marinheiro decanta os astros
no cume do verso
à proa da vertigem

e cantam as mulheres em coro:
a canção é uma viagem,
e é o fado do sangue, ser sempre
a semente do rosto,
a força amante dos braços
que circunscrevem os pomares em flor

é fundo sempre um rosto amado
é rósea a mão da cor do fado,

da cor do destino de um verso:
ser de tudo sempre

o obscuro ritmo diverso

um ser de raízes à tangente da fala


*
alimento a mel os olhos
dos mortos

em lagos de vento
o pó devora as mãos

tenho a tua mão sobre o meu ombro

as águas de maio
pela cintura


talvez a minha língua tenha que voltar à origem
ao teu rosto talvez tenha que
que pôr as minhas mãos por dentro dos lugares
que tu usas como coração

talvez tenha que aprender de novo
a me desequilibrar só de respirar

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